NA GRANDE ÁREA
O galã da área
Direi como diria o poeta: Meninos, eu vi! Eu vi jogar Mauro Ramos de Oliveira. Fora de campo, era um galã de cinema. Dentro de campo, tinha o porte das estátuas que se movem. Apesar de zagueiro, tinha com a bola uma relação sem arestas. Digo apesar, amigos, porque, naqueles tempos, o papel do zagueiro era limpar a área, com chutões a esmo que aliviavam a angústia da torcida.
Mauro teria sido um belo líbero se líbero houvesse no futebol brasileiro de então. Mocinho, ainda, Mauro despontou no time do São Paulo, principalmente, por uma característica: ele era capaz de sair da área, conduzindo a bola, vistosa e lucidamente, os olhos na linha do horizonte. Era um virtuose, membro nato da realeza de Domingos Da Guia, de Nilton Santos, de Carlos Alberto Torres, gente que sempre teve com a bola uma relação da mais terna convivência.
Está fazendo 40 anos o gesto de Mauro, erguendo a taça Jules Rimet, no palanque armado à beira do campo, no Estádio Nacional de Santiago do Chile, Mundial de 62. E posso imaginar com que orgulho o 'capitão' exibia o troféu da bonita conquista, um belo bis da Copa de 58, na Suécia.
Mauro bem que tinha motivos de sobra pra celebrar, no ato coletivo, uma vitória pessoal, uma vitória particular, uma vitória só dele. Mauro fora reserva de Beline, em 58 e reserva voltaria a ser, em 62, se o titular não tivesse se machucado nas vésperas da Copa. Nos amistosos que antecederam a Copa, Mauro entrou na equipe. Entrou, jogou bem e, naturalmente, achou que, tinha chegado a sua vez. Nada disso. A idéia da Comissão Técnica era devolver a Beline a posição e a prerrogativa de capitão. Quando soube que ia ser barrado, Mauro subiu nas chuteiras. Foi ao técnico Aymoré Moreira e participou, incisivo: ''Eu soube que você vai me tirar do time. Eu ganhei a posição e, agora, ninguém me tira!''
Conta a história que tudo se deu na base da diplomacia. Que Mauro se valeu do respaldo de Mendonça Falcão, ligado ao Santos F.C. e que fazia parte da delegação como convidado de honra. Conversa fiada. Mauro falou grosso, mesmo. E, pra felicidade geral da nação, ele honrou no campo a camisa por Beline consagrada.
Que Deus o tenha.
A noite do capeta
Um monge budista que gostasse de futebol perderia a serenidade se estivesse comentando o Campeonato Brasileiro. Já pensou, meu bom leitor: o time do Goiás, que vive o suplício dos excluídos, me dá um tremendo sacode de 3 a 0 no São Caetano. Na mesma hora, o Gama dá um esfrega mais estarrecedor ainda no Atlético Paranaense, em plena Arena do Furacão. E que tal o Figueirense que deu um bom amasso no Cruzeiro?
Telefonei pro Guedes. O Guedes é um velho torcedor, querido amigo, com quem costumo trocar idéias sobre futebol. Pois até o Guedes, que é metido a sabichão, até ele ficou pasmo com essas três legítimas zebras. Acredita o Guedes que a noite da última quarta-feira foi uma daquelas em que o capeta resolve dar as caras.
Por falar em dar as caras, o Fluminense diz que ficou surpreso e chocado com a atitude do jogador Beto. Beto não apareceu no treino. Interpelado pelo clube, Beto justificou-se: não pôde avisar que faltaria ao treino porque não tinha o telefone de ninguém do Fluminense. Aliás, pra ser franco, só tinha mesmo o telefone do Romário.
- E, então pergunta um cartola a outro cartola por que o Beto não ligou pro Romário? E o outro, acertando na mosca:
- Ora, ora, porque o Romário também não tem telefone de ninguém do Fluminense...
Dois estranhos no ninho tricolor.





