NA GRANDE ÁREA
Eneida é uma jovem recém-conquistada pelo futebol. Descobriu os encantos do jogo, na Copa do Mundo Coréia-Japão. Ainda nem caiu de amores por um clube. É um coração em aberto. Gosta, natural e brasileiramente da seleção. Uma coisa, porém, tem intrigado a moça: a linguagem dos locutores. Há qualquer coisa de caixa-preta que Eneida não compreende. Frases como ''a bola entrou na última gaveta'' ou ''fulano dá uma caneta em beltrano'', coisas assim baratinam-lhe a cabeça.
Digo a ela que a coisa já foi pior. Hoje, pelo menos, ninguém mais usa o palavrório empolado do glorioso tempo do rádio. Fico imaginando se Eneida topasse, um dia, com aquele spíquer que deixou sem pai nem mãe um professor americano. O gringo tinha acabado de graduar-se em língua portuguesa, na Universidade da Flórida. Estava no Brasil em viagem de avaliação. Um colega brasileiro aconselhou-o a ouvir futebol pelo rádio, como meio de se familiarizar com a linguagem coloquial. Foi, então, agraciado com a seguinte frase, dita com rara eloquência pelo locutor: ''Adentra o tapete verde o facultativo esmeraldino a fim de pensar a contusão do filho do Divino Mestre, mola propulsora do eleven periquito.''
No dia seguinte, de cuca fundida, o americano foi socorrido pelo amigo brasileiro que lhe passou o glossário da tal fala empolada: Tapete verde quer dizer campo, gramado; facultativo esmeraldino é o mesmo que médico do Palmeiras; filho do Divino Mestre Ademir da Guia, filho do antigo craque Domingos da Guia; mola propulsora jogador-de meio-de-campo; eleven periquito time do Palmeiras.
O americano voltou pros Estados Unidos. Se tivesse ficado no Brasil um pouco mais, teria ouvido outra preciosidade de um repórter de campo. Pra informar porque o juiz mandou trocar a bola, disse, de boca cheia o distinto colega: ''É que a bola original perdeu a sua esfericidade intrínseca.''
O besteirol de Dadá
E como conversa puxa conversa, eis que me deparo com outra pérola, esta, igualmente, destinada a enriquecer o sempre vivo dicionário do saudoso Stanislau Ponte Preta. Quem não se lembra do ''Festival de Besteiras que Assola o País?'' A frase, que já nasce célebre, foi dita, há dias, pelo treinador Robertinho, do Fluminense, no intervalo do jogo com o Santos. Reunidos em meia-lua, no vestiário, os jogadores ouviam a preleção, arrematada com a seguinte orientação tática: ''Agora, no segundo tempo, vocês devem fazer a inversão da dinâmica do somatório!''
É claro que, ainda no túnel, a caminho do campo, o técnico, cheio de dedos, deve ter deixado bem claro pro Romário que o recado nada tinha a ver com ele. Robertinho sabe muito bem que, há muito tempo, o Baixinho já trocou o estado dinâmico pelo estático. Ainda assim, o técnico disse esperar que, embora estátua, ele, Romário, seria peça fundamental pro sucesso do somatório, se bem que não o seria nos movimentos de inversão do somatório.
O time do Fluminense acabaria empatando a partida, mesmo tendo padecido o jogo inteiro, vítima da dinâmica das inversões do time do Santos, o qual bem que merecia chegar ao somatório com uma justa vitória.
Confesso que já estava com saudades de ouvir uma sentença lapidar no besteirol do futebol. A última, já faz tempo. Autor: Dario, Peito de Aço. Saía ele de campo, depois de um Atlético Mineiro x Corinthians. Os repórteres o cercaram, querendo confundi-lo com perguntas complicadas. Dario explodiu: ''Não venham com problemáticas, pois tenho as solucionáticas.''
E mais não disse, nem lhe foi perguntado.





