Zizinho está fazendo 80 anos, esta semana. Esguio, sensível, resoluto, genial. Era assim que o víamos, nós, contemporâneos de seu futebol. Na seleção, era venerado pelos companheiros que o chamavam Mestre Ziza. A palavra dele era lei pra turma toda. Ademir Menezes, Jair, Nilton Santos, Danilo, Barbosa, Rui, Bauer, todos, sem exceção, tiravam o chapéu pra ele. Dentro de campo, então, nem se fala.
No Flamengo, na seleção, no Bangu e no São Paulo, Mestre Ziza era exemplo raro de alguém que vivia a plenitude do futebol. Ele carregava o próprio piano em que tocava - e tocava o fino do fino, como bem testemunhou a história. Tinha uma garra incomum numa época em que craque não era muito de correr; craque era mais de fazer a bola correr. Muitas vezes o via, no Maracanã, comecinho de jogo, a atiçar os colegas de equipe, estalando as mãos espalmadas nas duas coxas lustrosas da massagem. Queria empenho, queria transpiração, sabia que a vitória só viria à custa de muito suor. Era a encarnação do craque heróico.
Era eu, então, um mero torcedor de arquibancada. Minha paixão era o Botafogo. O Botafogo de Heleno de Freitas. Mais tarde, o Botafogo de Nilton Santos, de Garrincha, de Didi. Tinha, pois, motivos de sobra pra negar o imenso futebol de Zizinho. A grande verdade, porém, é que Zizinho era tão bom que pegava mal desmerecê-lo. Seria um despropósito, pra não dizer uma insanidade. Coisa assim como se alguém, depois de 58, ousasse contestar Garrincha ou Pelé.
Uma tarde longínqua dos anos 50, fui ver Zizinho no Maracanã. Ele já estava jogando pelo Bangu, cujo patrono, o milionário Silveirinha, conseguira formar um timaço, a peso de ouro. Zizinho era, naturalmente, a estrela da companhia. E foi assim, exaltando-lhe o talento, que convenci minha namorada a trocar o cinema, no Metro, da Cinelândia, por um recital de Zizinho, no Maracanã. Afinal, o coração que pulsava por ela era o mesmo que pulsava pelo futebol.
Era Bangu contra quem já nem me lembro mais. Francamente, o jogo nem me interessava muito. Eu só queria ver Zizinho, os solos de Zizinho. Sentamos na arquibancada, por sinal, mais pra vazia que pra cheia. Minha namorada foi logo me dando a primeira alegria: quando entrava em campo o time do Bangu, ela me perguntou, animada, qual deles era o Zizinho. Apontei-lhe a camisa 8, mostrei a figura inquieta a se movimentar no grande círculo, saltitante, aquecendo o corpo.
O jogo embalado, ali pelos 20 minutos, Zizinho domina a bola na intermediária do rival. Descarta o primeiro, acelera, passa por dois, em fila, reduz a marcha, torna a acelerar, entra na área, trava o corpo, pisa na bola. Os beques ficam pra trás. Lá vem o goleiro! Pra que? Zizinho encobre-o com um prodigioso lençol.
- ''Acabamos de presenciar uma obra de arte'', disse eu, voltando-me pra minha namorada.
- Viu que coisa linda? - perguntei, deslumbrado.
- Não vi, querido, que é que foi?
Minha namorada não tinha visto nada. Perdera a jogada de Zizinho. E perdera pra sempre. Naquele tempo, não existia videoteipe. Enquanto eu me deliciava com o solo indizível de meu ídolo, minha namorada, feito uma boboca, olhava um avião da ponte-aérea que passava, rotineiro, por cima do Maracanã. Considerei a atitude dela uma ofensa. Perdoei-a, mas assim mesmo, só fizemos as pazes no dia seguinte. Domingo de noite, não houve beijos. A briga foi feia e o namoro só não acabou pra sempre, porque a moça era muito bonita e também porque Zizinho não era do Botafogo...
RÁPIDAS E RASTEIRAS

- Jayme Oncins, que tinha virado duplista sistemático, parou com o tênis, de vez. Parou em plena forma, mas parou na hora certa. O jogo de duplas está minguando na ATP. Já, já, será extinto. Custa caro e ninguém vê. No torneio de Montecarlo, por exemplo, não se vendeu um único ingresso de dupla. Palavras de Patrice Dominguez, diretor da Associação de Tenistas Profissionais.

- Entrevistei Leandro Ávila no Programa Armando Nogueira que, agora, é exibido no Sportv às 19 horas de segunda-feira. Leandro é um bom exemplo de que nem todo cabeça-de-área é cabeça-de-bagre.

- O vôlei é um dos esportes mais obcecados pela onda marqueteira. A Federação Internacional comete a insensatez de premiar, com dinheiro, o melhor isto, o melhor aquilo. É uma forma de discriminação que só exacerba o individualismo, em desfavor do espírito de equipe.

- Zagallo fez 70 anos e já não refresca com ninguém. Petkovic é ídolo, vale uma fortuna e daí? Como não marca nem cerca ninguém e não está resolvendo nada lá na frente, só tem um lugar pra ele: a cerca...

- Saiu num jornal de bairro, do Rio, que os ultraleves são incômodos, fazem muito barulho nos céus da Barra da Tijuca. Desconhecem os descontentes que a frota do clube CEU é usada pela CET-Rio no sobrevôo de engarrafamentos no verão. E mais: sempre que a cidade entra em estado de emergência, o clube põe seus aviões à disposição da Defesa Civil. Na última enchente que depenou a floresta da Pedra Branca, os aviões do CEU fizeram seguidos sobrevôos, lançando sementes para o reflorestamento das montanhas.

- A vitória de Layton Hewitt no Aberto dos Estados Unidos, contra Pete Sampras, é um tranco pesado no marketing do tênis masculino norte-americano. Sampras e Agassi, os dois ídolos nacionais, eram os favoritos do torneio.
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Colaborou Andréa Escobar
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