Na Grande Área
Não me sai do pensamento o desconsolo que foi ver a seleção jogar o futebol de meia-tigela que jogou contra Gales e Inglaterra. Ainda bem que Wembley será, em breve, demolido e, certamente, seus escombros hão de esconder, pra sempre, a pífia exibição brasileira.
Felizmente, Wanderley Luxemburgo acaba de mudar de idéia. A armação da equipe ganha um sopro de talento, com Alex no lugar de Zé Roberto. Alex é um jogador de estilo intermitente. Some do mapa, dissimulado, mas quando menos se espera é de seus pés que vai nascer um passe de meio gol. Alex tem pés que pressentem. França e Edmundo devem estar contentes. Se os dois estiverem atentos, certamente hão de ser contemplados por Alex, esse jovem inventor de cadências, em quem eu admiro a faculdade de alternar razão e intuição. Ora, ele pensa, ora, adivinha. Encarnação de Ademir da Guia. -
Só o talento individual pode salvar uma equipe que, além de mal convocada, tem sido pouco treinada. A rigor, pouco é exagero. A seleção, simplesmente, não treina, o que, de certa forma, atenua os equívocos do treinador. Resultado: coletivamente, tem sido um fiasco.
No plano defensivo, não conheço nada mais angustiante do que a zaga Antônio Carlos-Aldair. Luxemburgo diz que recorre aos dois porque jogam juntos no Roma. E daí? Como se o Roma fosse um supertime. O Roma ficou em sexto lugar no campeonato italiano. Aldair e Antônio Carlos podem até se entender na língua que lhes é comum - o português. Na língua da bola, porém, os dois batem cabeça. Aldair, por falta de pernas; Antônio Carlos, por excesso. Como dá bordoada!
A meia-cancha, por sua vez, tem sido de uma esterilidade aterradora. Zé Roberto, Emerson e Vampeta batalham, encharcam a camisa mas são incapazes de criar, numa chispa, um passe capaz de desmontar a defesa rival. Vão suor. Até que Vampeta tem seus ímpetos ofensivos mas, até agora, porém, parece saudoso de Marcelinho, de Edilson e de Ricardinho com os quais triangula muito bem, no time do Corinthians.
Imagino que Rivaldo esteja dando graças a Deus por ter perto dele um jogador com engenho e arte pra ajudá-lo na tarefa de organizar as ações ofensivas. Rivaldo é craque, mas ninguém se iluda: ele jamais assumirá a regência da equipe. Rivaldo é individualista, e, como tal, imprevisível. Alex amadurece a cada jogo no papel de criação. O time do Palmeiras, com ele, é uma coisa; sem ele, é outra, sensivelmente desfigurado.
Enfim, Wanderley Luxemburgo sabe melhor que ninguém que a seleção tem sido um furo nágua. Tanto que decidiu alterar a escalação, dando um toque de leveza ao naipe de armadores. Lá na frente, deve-se louvar a intenção de abrasileirar o ataque: França e Edmundo certamente são capazes de deixar em cólicas qualquer zaga peruana. Se bem que vejo com reservas a forma atual de Edmundo. Ainda assim, amigos, é preferível Edmundo batendo pinos ao Elber, esbanjando músculos. Sinceramente, acho o estilo de Elber muito alemão pra meu gosto.
Alemão por alemão, fico com o Goethe, que, em boa hora, ajudou Luxemburgo a escalar Alex...
ULTRAJE A RIGOR
Não é de hoje que a crônica esportiva vem denunciando a violência no futebol, em todos os cantos do mundo. E fora deles também, nas arquibancadas das torcidas ferozes.
A barbárie que tomou conta do futebol no entanto, é sempre mais visível entre os jogadores, no espinhoso corpo a corpo da disputa. É daí que provém o espetáculo sangrento de hoolingans globalizados.
Desta vez, o que nos surpreende é ouvir, alta e clara, a voz da incitação e descobrir que ela vem do líder. Luis Felipe Scolari passou da conta. Mandar escarrar em alguém é a maneira mais deplorável de exercer uma liderança. Se o técnico do Palmeiras não se penitenciar, em público, estará dando uma prova de insensibilidade que só agrava a estupidez de sua infeliz palavra de ordem.
Chamar a equipe aos brios é uma coisa; desafiá-la a proceder como um bando de bárbaros é outra, absolutamente, condenável. Essa de mandar escarrar - essa, amigos, só provoca repugnância. Que mensagem pretende transmitir alguém a seus liderados quando os incita à catarrada? Além de ser um ultraje à condição humana, é de um mau-gosto que descamba na mais profunda morbidez.
Luis Felipe Scolari é um notório passional. Por tudo e por nada, perde a esportiva. Confesso, porém, que nunca pensei que um técnico pudesse chegar a tamanha insanidade. Afinal, a palavra técnico vem do grego tecknikós e quer dizer arte, ofício, ciência. Em todos os tempos espera-se do técnico a palavra criadora que orienta, que ensina, que ilumina. A imagem de um ser humano cuspindo no outro ser humano é muito mais violenta que as cotidianas cenas de carrinho que vemos todos os dias nos campos e na telinha da tv.
Com a palavra, a direção do Palmeiras, a Federação Paulista, a CBF.
É inconcebível.
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