O Fluminense retira Telê da vida reclusa e presta-lhe uma bela homenagem, no rol de celebrações do centenário. Na era do profissionalismo, poucos encarnam tão bem a glória do clube como Telê Santana. Que o digam os que o viram, um fiapo de gente, a ensopar a camisa de talento e suor, no começo dos anos 50. Eu vi, cansei de ver Telê criar, ao lado de Didi, momentos que, depois, Nélson Rodrigues recriava na sua prosa poética de consagração tricolor. Aliás, foi outro ilustre tricolor, Mário Filho, quem primeiro chamou Telê de ‘‘Fio de Esperança’’. Nada mais feliz. Telê era em cada jogo a renovada promessa de um novo gol, de um novo triunfo, de um novo título. Como o de campeão carioca de 1951. Solidário, Telê subia e descia o lado direito do campo, defendendo e atacando, guerreiro incansável. Era, em 51, a prefiguração do que viria a ser o também infatigável Zagallo, no mundial de 58.
  A imortalidade do Fluminense está nos seus nobres troféus, nos seus castos vitrais, nas nuvens de pó-de-arroz perfumadas, na bandeira de três cores, no hino (o mais bonito de quantos Lamartine Babo compôs pros clubes do Rio); na aristocracia de Marcos Carneiro de Mendonça; na saudade de Romeu e Carreiro; na recordação de Orlando Pingo de Ouro e Pedro Amorim. Mais que tudo, o Fluminense do meu tempo está nos gols incomparáveis de Ademir Menezes, um portento de artilheiro que não dava por menos: no supercampeonato de 46, cada gol dele tinha ressonâncias de verdadeira ópera. Ao lado de Ademir, na mesma dimensão histórica, figura o goleiro Castilho. Sem ser santo, o moço fazia milagres em baixo das traves. Enfim, são tantas e tamanhas as fulgurações pessoais na vida do Fluminense que seria impossível enumerá-las sem cometer imperdoáveis omissões.
  O Fluminense de minha memória afetiva é, sobretudo, Nélson Rodrigues, autor dos cânticos mais poéticos, mais ardentes que alguém já dedicou a um clube de futebol. Em Nélson, com quem briguei e desbriguei algumas vezes, aprendi que o Fluminense veio ao mundo com a vocação da eternidade.
  Preciosa lição que trago comigo, pela vida afora, no melhor do meu coração.
Dois línguas-soltas
  Felipão entra de sola em Pelé. Não o perdoa por ter descartado o Brasil do rol de favoritos do mundial. E arremata, sentencioso, que Pelé não entende nada de futebol. Só dá palpite errado. A bronca, naturalmente, sobra pra muita gente, dentro e fora do Brasil. Antes da Copa, mesmo na fase das oitavas, não havia um só treinador que falasse diferente de Pelé. O Brasil era carta fora do baralho pra 31 dos 32 treinadores em disputa na Coréia-Japão. A começar do argentino Bielsa, cujo sistema de jogo Felipão confessa ter copiado. Ninguém apostava um centavo nas chances do Brasil. Aliás, o próprio Felipão dizia e repisava, sempre com um pé atrás, que sua meta era por o Brasil entre os quatro primeiros. Nunca falou em penta. Vai ver, era questão de superstição. Entre os descrentes, por favor, incluam, sempre, este pobre marquês de Xapuri. Até porque, naquela fase sombria da equipe, quem achava que daria pé devia ser internado num hospício.
  A retórica não é o forte de Pelé. Bobeou, ele fala uma bobagem. E tem sido assim em qualquer campo de atividade. Fernando Henrique tremia nas bases sempre que Pelé, seu ministro, convocava uma entrevista coletiva. Podia brotar daquela cabecinha mais uma batata quente política. O que tinha de bom o pé tem de ruim a cabeça da figura.
  O diabo é que o Felipão não fica atrás. É também um descosido mental. É outro incontinente verbal. Quando não agride os heróis do futebol romântico, com aquela infeliz metáfora do cachorro com lingüiça, lá vem ele enchendo a bola de Pinochet, a quem diz idolatrar.
  Na mesma entrevista em que cospe fogo em cima de Pelé, o Felipão me vem com uma revelação, no mínimo inconveniente. Diz que Sorin, então seu jogador no Cruzeiro, dava-lhe dicas sobre como jogava, nas eliminatórias, a seleção de Bielsa. Vamos e venhamos, algum de vocês gostaria de estar na pele de Sorin, agora que a Argentina amarga a dose dupla de ter fracassado na Copa, justamente a Copa em que o Brasil conquista o pentacampeonato? Precisava entregar o Sorin a uma inevitável fúria nacionalista de seus patrícios?
  Pelé e Felipão. Em questão de retórica, dou um pelo outro e não quero troco.

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