NA GRANDE ÁREA - Viva a democracia
Ricardo Teixeira fica mais quatro anos na CBF. Venceu de goleada, 46 a 1. Vitória esmagadora. Poderia ter sido 47 a 0. Só não foi porque um gaiato qualquer logo lembraria a frase de Nelson Rodrigues, segundo a qual toda unanimidade é burra. E, convenhamos, é certo que cartola algum, dificilmente, será admitido no reino do céu, mas nunca será pelo pecado da burrice.
Depois do pleito, o vencedor exaltava a maravilha que é o instituto do voto, sobretudo, quando espelha a sacrossanta vontade dos amigos, também conhecidos como cúmplices.
Uma das coisas que mais me contentam na vida é o exemplo de democracia que nos dá o futebol. No caso de Teixeira, ele está indo pro quinto mandato consecutivo. Aprendeu direitinho a lição do ex-sogro, João Havelange, que foi presidente da Fifa pelo curto período de 24 anos.
O próximo passo é a perpetuação de Teixeira. Quem duvidar que duvide. Pois agora mesmo, o dito Teixeira, junto com seus pares do continente, acabam de aclamar o paraguaio Nicolas Leos presidente vitalício da Confederação Sul-Americana de Futebol.
Passa o tempo, passa o craque, a uva passa, só o cartola traspassa. Trapaça.
Sinistra retranca
A vitória do Boca, derrotando o Santos, na Libertadores, me deixou um tanto preocupado. Temia que o estilo do campeão pudesse ser imitado por times brasileiros. Fui um dos poucos críticos que deploraram a retranca.
No mais, com raras exceções, todo mundo falou maravilhas da organização tática do time argentino, que ficou lá atrás, renunciando a qualquer risco pra acabar vencendo no manjado contra-ataque. Não faltou sequer o clichê de que Bianchi deu um nó tático em Leão.
O futebol mundial passou uns 20 anos estigmatizado por esse estafermo chamado retranca, que reduzia qualquer partida à chatice do 0 a 0. A vitória, quando ocorria, não passava de 1 a 0.
Faço esse breve comentário, com travo de libelo, pra lastimar que o time do Santos tivesse recorrido à retranca pra sustentar o 1 a 0 que imporia ao Corinthians quase até o fim da partida de quarta-feira de tarde, no Morumbi.
No fim, deu no que deu: mesmo desconjuntado, o time do Corinthians assumiu o controle da partida, martelou, martelou, até que alcançou o empate. Foi assim o segundo tempo inteiro: o Santos encolhido na mais temerária das retrancas e o Corinthians, mesmo aos trancos e barrancos, a mandar no jogo.
Gente, esquece o Boca. Aquela vitória, em duas partidas, foi uma eventual exaltação do anti-jogo. É bom lembrar que o campeão argentino é o River, que é o oposto do Boca, que joga de peito aberto, ofensivamente.
O resto é velhacaria.
Pedalando... Pedalando...
A questão é a seguinte: Diego e Robinho despontaram ao mesmo tempo. Diego vai indo muito bem, obrigado. Robinho empacou. Terá sido fogo de palha, rebate falso? Essa é a pergunta que me chega de alguns leitores. Não pretendo ser o dono da verdade, mas, desde logo percebi que, pela diferença de estilo, a parada de Robinho seria mais espinhosa. Em suma, Diego é o passe; Robinho o drible. O driblador estará sempre mais exposto ao choque implacável do que o passador. Diego, atarracado, tem uma compleição física proporcional à sua estatura. Robinho, longilíneo, carece ainda de massa corporal. É um fiapo de gente. Muscularmente, é de uma fragilidade atroz. O drible, seu forte, não depende só de habilidade. Habilidade, ele tem de sobra. O que lhe falta é torque. Garrincha tinha quadríceps cavalares. Julio Botelho, igualmente, tinha um arranque de Fórmula 1.
Imagino que Robinho esteja malhando muito, sob orientação dos preparadores físicos do Santos. A meu ver, só assim, apoiado em músculos bem desenvolvidos, ele pode chegar onde seu talento merece que chegue. Senão, ele vai continuar pedalando, pedalando, pra não chegar a lugar nenhum.
Armando Nogueira
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