NA GRANDE ÁREA - Um tour em Paris
A seleção brasileira não viu a cor da bola, no jogo contra Camarões. A derrota, em si, não chega a ser o fim do mundo. Afinal, não é a primeira vez que o Brasil se dá mal com esses mesmos africanos. Em 96, com uma equipe olímpica reforçada, a seleção levou um bom amasso de Camarões, nas semifinais dos Jogos de Atlanta.
Pior do que a derrota é a infantilidade com que a maioria dos jogadores explicava o 1 a 0 do Stade de France: A marcação deles não deixou que a gente jogasse. Quer dizer: nossos rapazes esperavam que o time de Camarões fosse, apenas, mais uma escala no tour que tinham feito, na véspera, pela cidade de Paris.
Desculpa mais esfarrapada, sinceramente, não pode haver. Queriam o que? Queriam, por ventura, que a equipe de Camarões desse uma de Nigéria? Uma semana antes, a seleção nigeriana tinha estendido um amável tapete verde pelo qual desfilaria o reluzente andor brasileiro. O que deveria ter sido uma partida de futebol acabou sendo uma ação entre amigos.
Posso imaginar a decepção de Carlos Alberto Parreira, ali, na beira do campo, vendo a seleção brasileira se deixar acorrentar, passivamente, por uma marcação primária. Os africanos não estavam, ali, inaugurando um sistema defensivo revolucionário. Simplesmente, cercavam, antecipavam, resfolegavam em qualquer corpo-a-corpo. Fizeram o trivial, o habitual. Pra neutralizar uma geléia de apatias, qualquer sistema bastaria.
Se era grande o desapontamento de Parreira, com a inação de sua equipe, que dizer do nosso, mal-estar, vendo que o treinador, em vez de fazer mexidinhas superficiais, não trocava logo um bom que estava mal por outro bom que estava no banco? Afinal, no banco estava, nada mais, nada menos, que o melhor meia-atacante do momento, no Brasil, que é o Alex. Pelo menos, naquele quadro de indigência técnica, talvez fosse uma saída.
Não é preciso dizer mais nada: a seleção de Camarões venceu o jogo porque, enquanto ensopava a camisa, a do Brasil circulava pelo campo, como se estivesse batendo pernas no calçadão dos Champs Elysèes, ciceroneada por Ronaldinho Gaúcho.
Boca e Milan...
O Santos é um time de guris, mas como fala grosso! A vitória de Medellín, que o põe na final da Taça Libertadores, deu gosto ver, quarta de noite; pela maturidade de Diego, um regente de equipe, de menos de 20 anos, que joga futebol de gente grande; pelo senso de jogo coletivo; pelo requinte técnico e pelo desassombro de seus jogadores; pela liderança do técnico Leão que, numa preleção de intervalo, sacudiu o elã da equipe, que andara fraquejando no primeiro tempo. Até que razões havia pros descaminhos da equipe no começo do jogo.
O gramado do Independiente está em petição de miséria, a multidão colombiana não deu trégua, hostilizando o visitante, inclusive, com a clássica intimidação de fazer dos brasileiros alvo de pedras e de latas de refrigerantes atirados das arquibancadas. Aquela selvageria de sempre nos campos sul-americanos. E foi justamente por não esmorecer que o triunfo santista ganhou dimensão épica.
Há precisamente quatro décadas, o Santos não vivia o instante glorioso de chegar a uma decisão do mais importante torneio do continente.
Agora, é chegada a hora de reviver, com o Boca Juniors, o lá-e-cá decisivo da Libertadores. Em 1963, o Santos venceu as duas, uma, no Maracanã e a outra, na Bombonera. Foi há 40 anos. Agora, vejam até onde vai a coincidência: quem aguarda o vencedor do confronto sul-americano? O Milan, aquela mesma legenda, que o Santos derrotaria, numa partida heróica, no Maracanã: 4 a 2, noite de tremendo aguaceiro em que o time da Vila fez tudo que só um grande time seria capaz de fazer. Até chover o Santos fez.





