NA GRANDE ÁREA - Um jogo político
Melancólico o papel da seleção em Fortaleza. Nem falo da derrota, que aquilo não foi um jogo, aquilo foi uma jogada política. Digo melhor: foi um comício partidário. Onde já se viu reduzir um símbolo da nação a mero cabo-eleitoral? Ricardo Teixeira não tem o menor pudor no trato com a seleção. Quando não faz dela instrumento de negócio, usa-a como ferramenta de poder. Teixeira tem feito o que pode pra deslustrá-la.
Depois do Mundial, o plano dele era voar com a seleção direto a Fortaleza, pra um encontro de corriola com seu amigo Tasso Jereissati. Depois, então, é que viriam as celebrações populares no Rio e em São Paulo. Brasília, de saída, estava descartada. O presidente da República não seria o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro a receber os campeões (por sinal, uma tradição no cerimonial de todas as conquistas). Nem o último. A intenção era dar o troco à Medida Provisória de moralização do futebol, mandada ao Congresso, por Fernando Henrique, em pleno andamento da Copa. Pura retaliação que só não se consumou por pressão de amigos íntimos e conselheiros de fé.
A jogada de Fortaleza não pegou nada bem pra Ciro Gomes. Ele não ganhará votos. Terá sorte se não perder. Está na cara que Teixeira e Jereissati atraíram o candidato acreditando que Ciro poderia tirar uma casquinha no prestígio da seleção. Ora, numa competição, seja ela esportiva ou política, usar de um privilégio como trunfo de campanha é, no mínimo, temerário. Se os concorrentes não tirarem partido da mancada eleitoral de Ciro, ele que se dê por muito feliz. Digo essas coisas tocado por um certo desapontamento. Sempre tive admiração por Ciro Gomes, um dos poucos políticos que têm espírito público e que tratam o bem de todos com seriedade. Mas, nessa, Ciro vacilou feio.
Ricardo Teixeira, todos sabem, é o cartolão que jamais compreendeu que a seleção não pertence a ele nem a ninguém em particular.
Os jogadores por sua vez, demonstram, uma vez mais, que não sabem o que seja cidadania. Se soubessem, teriam se recusado a jogar o jogo de um só candidato, em plena campanha eleitoral. Portaram-se como se fossem meros apaniguados de Ricardo Teixeira. Vai ver, é assim mesmo que eles se sentem. Campeões do mundo, campeões da inconsequência.
No meio-da-semana
O Brasileiro do meio da semana não foi lá pra que digamos, mas, pelo menos, alguma coisa valeu a pena ver: 1) No Morumbi, o Juventude vence, sobrando e o São Paulo (sem Kaká), perde, soçobrando...; 2) A suadeira do Gama no Vasco idem, em pleno São Januário; 3) O dedo esperto de Picerni, começando a dar jeito no Guarani que engoliu o Grêmio, no Olímpico; 4) O inacreditável, o impensável, o insólito, o imerecido empate que o Botafogo arrancou ao Inter, no Maracanã, sem ter dado um único chute a gol. O tal empate veio em duas cabeçadas vizinhas, dadas por um vago Ademílson, nos dois únicos instantes em que o alvinegro teve a honra de ser admitido na área rival, em 90 minutos; 5) O gol de Arce, cobrando falta contra o São Caetano, no triunfo do Palmeiras. Por sinal, uma partida mal jogada por dois times desconjuntados (há jogos que parecem o samba do crioulo doido). Sei que houve outros jogos, mas, não dá pra ver tudo ao mesmo tempo.
Graças ao bom Deus.





