Centenário de Carlos Drummond de Andrade. Foi poeta, magnífico, a vida inteira. Embora não fosse muito ligado em esporte, figura entre os mais brilhantes cronistas bissextos que escreveram sobre futebol. Que o diga o livro ‘‘Quando é dia de futebol’’, agora publicado, na celebração dos 100 anos de seu nascimento. Drummond era vascaíno, mas sem maiores empolgações. Jamais trocou a velha fleugma por uma tarde explosiva no Maracanã.
  Drummond escreveu poemas e crônicas admiráveis sobre a seleção brasileira, umas, pra saudar vitórias, outras, pra entender derrotas. Numa crônica dos anos 70, no JB, o cronista filosofava poeticamente: ‘‘Perder é tocar alguma coisa/ mais além da vitória, é encontrar-se/ naquele ponto onde começa tudo/ a nascer do perdido, lentamente.’’
  Transcrevo estrofes de um dos poemas mais bonitos do livro ‘‘Quando é dia de futebol’’. Chama-se Sermão da Planície:
  ‘‘Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade. Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte. Bem-aventurados os que não têm paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto. Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio. Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia. Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura. Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e os assistentes ocasionais das peladas. Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo. Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade. Bem-aventurados os que, na hora da partida internacional, conseguem ouvir a sonata de Albinoni, pois destes é o reino dos céus.’’
Os paulistas na medida
  Os grandes clubes paulistas fecharam com a Medida Provisória pela moralização do futebol. A decisão foi tomada, quarta passada, em reunião com o secretário nacional de Esportes, José Luiz Portella. O Clube dos 13 tentou espionar a reunião, mas foi docemente constrangido a não comparecer. Bem feito. Sempre que era chamado a opinar sobre a questão, Fabio Koff dava o silêncio como resposta.
O rondó tricolor
  O time do São Paulo foi o primeiro a entrar no clube fechado dos oito bem-aventurados. Fez 43 pontos, goleando a Ponte Preta, com um futebol, ao mesmo tempo de luta e de ornamentos. Há manobras dessa equipe que lembram um rondó de rico refrão: bola pra cá, bola pra lá, bola aqui, bola acolá, bola pra frente, bola na rede, que é lugar quente.
  São Caetano, Corinthians e Juventude, quase lá também, já podem proclamar, a quatro vozes: os cães ladram e a caravana passa...
  Lá atrás, quase no abismo a despencar, Botafogo, Flamengo, Paysandu, Gama, Palmeiras, Vasco e Paraná embalam-se no consolo bíblico: Os últimos serão os primeiro.... na segunda...entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte. Bem-aventurados os que não têm paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto. Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio. Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia. Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura. Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e os assistentes ocasionais das peladas. Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo. Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade. Bem-aventurados os que, na hora da partida internacional, conseguem ouvir a sonata de Albinoni, pois destes é o reino dos céus.''
Os paulistas na medida
Os grandes clubes paulistas fecharam com a Medida Provisória pela moralização do futebol. A decisão foi tomada, quarta passada, em reunião com o secretário nacional de Esportes, José Luiz Portella. O Clube dos 13 tentou espionar a reunião, mas foi docemente constrangido a não comparecer. Bem feito. Sempre que era chamado a opinar sobre a questão, Fabio Koff dava o silêncio como resposta.
O rondó tricolor
O time do São Paulo foi o primeiro a entrar no clube fechado dos oito bem-aventurados. Fez 43 pontos, goleando a Ponte Preta, com um futebol, ao mesmo tempo de luta e de ornamentos. Há manobras dessa equipe que lembram um rondó de rico refrão: bola pra cá, bola pra lá, bola aqui, bola acolá, bola pra frente, bola na rede, que é lugar quente.
São Caetano, Corinthians e Juventude, quase lá também, já podem proclamar, a quatro vozes: os cães ladram e a caravana passa...
Lá atrás, quase no abismo a despencar, Botafogo, Flamengo, Paysandu, Gama, Palmeiras, Vasco e Paraná embalam-se no consolo bíblico: Os últimos serão os primeiro.... na segunda...

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