O Cruzeiro venceu o jogo com o Paysandu sem ter em campo sua mais fulgurante estrela: o canhoto Alex; por sinal, substituído por outro canhoto de renome - Zinho. E como jogou bem o preposto do regente-mor! Em dado lance, Zinho invade a área paraense, intuitivo, vertiginoso, dribla uma sequência de três adversários, cria o ângulo e chuta com precisão milimétrica. A trave impede que seja marcado um dos mais belos gols do campeonato. Foi um desses momentos que Alex, certamente, subscreveria.
Alex assistia à partida, sentado na tribuna de honra. Contido, como sempre, ele parecia mentalmente ligado no jogo. O craque, naquela situação, é, mais que nunca, um enxadrista, capaz de antever dois, três lances com notável clarividência.
Aliás, a analogia com o jogo de xadrez é a que melhor me ocorre, ao julgar o time do Cruzeiro. As pedras se movem com um raro senso de objetividade. As manobras do time obedecem a um rito preconcebido. Cada jogador tem um redobrado cuidado, quando na posse da bola: primeiro, procurar passá-la, com segurança, ao companheiro mais próximo; depois, desloca-se pra poder oferecer uma alternativa de jogada. O jogador sem a bola está sempre mobilizado.
Não que sejam autômatos os jogadores. O xadrez não admite improvisações: o percurso da torre é tão linear quanto oblíqua deve ser a trajetória do bispo. É dogma. O time do Cruzeiro, por sua vez, se permite surpresas. De repente, os laterais se projetam como peões destemidos e vão chutar em gol, convertidos em autênticos atacantes.
Duas mentes governam os passos da equipe, desde já campeã brasileira: fora de campo, ao longo da semana, o técnico Wanderley Luxemburgo traça o plano de jogo, concebendo ardís que vai transmitindo à equipe, graças a uma retórica nada rebuscada. Luxemburgo fala fluentemente a língua de seus jogadores. Dentro de campo, é Alex que rege as ardentes peças no vai-e-vem do tabuleiro. São corpos em movimento. Muitas almas numa só alma.
Nunca foi tão oportuno dizer que o time do Cruzeiro encarna o proverbial ditado que diz que o mineiro trabalha em silêncio. A torcida é eloquente, ruidosa; a equipe é ardente e silenciosa. Assim foi o ano inteiro: os adversários em apuros e o time do Cruzeiro, só jogando o jogo. Por isso, dá pra dizer que o campeão é a cara de seu capitão, o impassível Alex. Alma síntese de todas as almas da equipe.
O futebol é um mundo sublime em que se misturam emblemas, sortilégios, lágrimas, geometrias, prazeres, fascínios, consolações. Quem quiser fazer feliz esse um universo basta presenteá-lo com uma equipe como essa do Cruzeiro, herdeira daquela outra que, um dia, nos deu o esplendor de Tostão.

AS MÃOS PELOS PÉS
O ano esportivo vai terminando entre celebrações brasileiras. O fim-de-semana não poderia ter sido mais pródigo em memoráveis conquistas. Glórias a granel. Glórias de todas as cores, de todos os teores e de todos os sabores.
O Palmeiras e o Botafogo repartem a glória de voltar à 1 Divisão do futebol, vertendo no campo o suor da disputa mais virtuosa. No começo da semana, Daiane dos Santos traz da Europa a medalha de ouro da ginástica olímpica, com seu triplo mortal: três versos de um corpinho alado, desafiando a Lei da Gravidade.
Em Belo Horizonte, o Mineirão se converte no profundo mar azul dos poemas do mineiro Paulo Mendes Campos. O Cruzeiro conquista a terceira coroa do ano de 2003: campeão de Minas, campeão da Copa do Brasil e campeão brasileiro.
Por fim, o mais expressivo dos triunfos brasileiros: a seleção masculina de vôlei ganha, invicta, a Copa do Mundo e assegura, assim, sua presença nos Jogos Olímpicos de Atenas, ano que vem, onde estará, também, por bonita campanha, a seleção feminina.
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