NA GRANDE ÁREA - Seleção, um bom negócio
Agora em setembro, tem Copa do Mundo, de novo. São as Eliminatórias que começam a correr já por conta do Mundial de 2006. Em tempos de esporte-mercado, é assim mesmo que se empina a pipa: mal acaba um torneio, já começa outro. A caixa registradora não pode parar. E tem mais: o campeão não merece mais tapete vermelho. Até aqui, o vencedor da Copa não jogava eliminatória. Tinha as naturais imunidades dos coroados. Entrava direto na fase final.
Agora, só o anfitrião tem esse privilégio. E se alguém pensa que isso é perda de status não deixa de estar certo. Mas e daí? Vivemos a era do futebol-negócio. Ficar fora das eliminatórias é deixar de faturar uma boa grana em direitos de tevê.
São 18 partidas. Que bolada de dólares meus amigos! A CBF, seguindo a cartilha argentária da Fifa, não é mais aquela entidade acima do bem e do mal cuja seleção representava no campo de jogo a própria auto-estima nacional. Agora, a CBF é uma empresa comercial como outra qualquer. Vive de fazer negócios. A seleção, por sua vez, é apenas um produto. A Copa do Mundo, quem não se lembra, era um grande cortejo de nações esportivas.
Hoje, a Copa já perdeu a etiqueta de notável torneio esportivo. Converteu-se num empreendimento mercadológico, à sombra de 32 hinos nacionais.
Assim, nada mais apropriado do que desejar que as eliminatórias sejam, pra seleção, um bom e rendoso negócio.
O cerco impiedoso
O técnico Carlos Alberto Parreira deve andar muito assoberbado com a seleção. Do contrário, teria me mandado, como prometera, uma cópia do roteiro do teipe com que pretende ilustrar suas conversas com o elenco da seleção, durante as eliminatórias.
Na conversa que tivemos, durante uma pizza ''chez'' Faustão, em São Paulo, Parreira corrigiu a notícia, então corrente, de que ele estaria redigindo uma espécie de catecismo de orientação dos jogadores.
Não se trata de um manual. É, sim, um videoteipe, com imagens dinâmicas de jogos europeus, pra mostrar como está cada vez mais asfixiante a marcação no futebol atual. Ninguém dá trégua a ninguém. Ele voltou da Copa das Confederações impressionado com o crescente predomínio da força física no futebol de nossos dias.
Conclusão de Parreira: só há um jeito de escapar ao cerco impiedoso do adversário: tocar a bola, sempre de primeira; movimentar-se o tempo todo, seja pra desnortear o rival, seja pra oferecer opções de jogada à sua própria equipe. A rigor, não há grande novidade nessa história toda. Nos anos 50, o folclórico treinador Gentil Cardoso já cantava a pedra, escrevendo na parede dos vestiários: ''Quem desloca recebe''.
Na mesma linha, Puskas costumava dizer, na mesma época: ''No futebol, o jogador que está sem a bola é tão importante quanto o que está com a bola.''
Parreira pode não estar descobrindo a pólvora, mas não lhe custa nada pregar, com insistência, velhas normas que o tempo consagrou e que devem ser respeitadas como dogmas de um jogo-religião.
Um atacante de linha
Não gosto de atacante que planta a barraca na grande área e fica lá, esperando a melhor bola pra, então, chutar a gol. Fora Romário, já na terceira idade, o estilo ponta-de-lança, paradão, não me seduz. Gosto, mesmo, é do atacante que vem buscar jogo, fora da área, e sai, senhor absoluto da bola, na direção de alguém, seja pra trocar passes, seja pra oferecer uma chance de chute.
Está aparecendo no time do Flamengo um atacante dessa linhagem. Chama-se Jean. A bola dele anda muito e é, sempre, incisiva, rasteirinha, queimando a grama. É bola de quem sabe o que fazer com ela. Repito o nome dele: Jean, do Flamengo. Quem ainda não o viu jogar, trate de ver, enquanto é tempo. Já-já, os europeus botam a mão nele e adeus, Guacira!
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