NA GRANDE ÁREA - Ricardinho, um cavalheiro
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terça-feira, 27 de agosto de 2002
Armando Nogueira 
O Campeonato Brasileiro, mesmo mal organizado, é uma inegável atração. O deste ano, mal começou, já nos tem contemplado com partidas excelentes. Quando não são os dois times, pelo menos um deles acaba sendo o dono da bola. É o caso do Atlético Mineiro, que sapecou uma goleada implacável no sempre temível Palmeiras, em pleno Parque Antártica.
Se fosse o caso de ampliar o conceito, bem que eu deveria fazer do Atlético Mineiro o meu personagem da semana. Como, porém, gosto de destacar uma figura, direi que o meu personagem é a 'singularíssima pessoa' de Ricardinho. Que, por sinal, não jogou; nem jogando vem, ultimamente. Está na muda... Ainda assim, minha preferência vai pra ele. Explico-me: um jogador não deve ser visto só pelo que faz ou deixa de fazer dentro do campo. Fora, também conta. Sei que é delicado misturar a face do ídolo com a do cidadão. Às vezes, a pessoa de um autor pode estar muito aquém de sua obra. Rubem Braga tinha uma solene má vontade quando falava do escritor argentino Jorge Luiz Borges. ''A obra dele é muito melhor que ele'', costumava dizer o velho Braga.
Ricardinho, recém-saido do Corinthians, teve uma atuação, a meu ver, correta, na questão de sua transferência pro São Paulo. Portou-se com a discrição de um cavalheiro. Não fez espuma, esquivou-se da mídia, certamente, pra não cair em tentações. Alguém pode achar que ele não tinha o direito de romper um contrato em vigor. Tinha, sim senhor. Quando os interesses profissionais entram em desarmonia, qualquer uma das duas partes tem pleno direito de propor uma rescisão, desde que pagando a multa prevista em contrato. E foi o que fez o jogador, pouco importa, se o fez com o chapéu alheio.
O craque concedeu todas as chances pedidas pelo Corinthians. Pro Corinthians valia qualquer negócio, desde que Ricardinho não o trocasse pelo São Paulo. A meu ver, uma reação pra lá de paroquiana que ainda vigora no futebol. Pois o jogador chegou a consentir, até mesmo, que o clube fosse oferecê-lo ao mercado europeu, expondo-o a um desgaste de imagem que seu ilustre futebol não merecia sofrer. Ricardinho queria conduzir a negociação com o máximo de elegância.
A novela acabou num desfecho civilizado: o Campeonato Brasileiro se enobrece com o futebol de Ricardinho, o time do São Paulo ganha mais uma estrela e o Corinthians, por sua vez, segue sua bela e gloriosa vocação de irresistível campeão.
Não sei se as duas situações se assemelham, mas não resisto à tentação de dizer que, se Ronaldo e seus empresários tivessem tido a temperança que teve Ricardinho, sua desavença com o Inter, talvez não descambasse pro desagradável terreno do ressentimento e da retaliação.
De longo alcance
O fim-de-semana do futebol brasileiro foi rico em um gênero de gol nada comum pras bandas de cá: é o gol em bola chutada de fora da área. Há muitos anos, era comum a gente ouvir de colegas europeus a seguinte pergunta: por que será que o jogador brasileiro não chuta de longe? Eu respondia, sempre, que a questão era e, com o tempo, não deixou de ser puramente cultural. Na pelada, o garoto brasileiro gosta mesmo é de chegar à área, driblando, pra tentar entrar no gol com bola e tudo. É a glória do peladeiro.
O técnico Geninho, do Atlético Mineiro, revelou à ESPN que, no treinamento semanal, tem levado seu time a chutar de fora da área. Pelo visto, vai dar bom resultado. No jogo contra o Palmeiras, a rapaziada mineira, mal chegada à entrada da área, já ia logo soltando o pé. Em meia dúzia de vezes, conseguiu mandar às redes três balaços, dois de Mancini e um de Leonardo Moura (o quarto foi de cabeça). Noutros jogos, houve coisa parecida: o volante Carlos Alberto, do Botafogo, acertou uma, também de longe, contra o Figueirense. O melhor de todos, da entrada da área, foi feito por Cleiton Xavier, do Inter, empatando o jogo com o São Paulo. Por sinal, um sem-pulo de rara beleza. O sem-pulo, quando pega na veia, é um verdadeiro raio. Não dá ao goleiro, sequer, a chance de poder contemplá-lo. No caso de Cleiton, Rogério Ceni ficou estatelado, num pasmo completo.


