NA GRANDE ÁREA - Regente e solista
Ronaldinho Gaúcho ganha medalha do prefeito de Paris, desfila de braços abertos nas águas do rio Sena, dá autógrafos no calçadão dos Champs Elysées. É a consagração; por sinal, justíssima. Os franceses sabem das coisas. O rapaz fez história na Copa. Só quem não viu foi a Fifa, que o ignorou, solenemente, na hora de louvar os melhores jogadores do mundial. Fora a 'sola' impensada que lhe custou a expulsão contra a Inglaterra, fora aquele vacilo, repito, ninguém melhor que ele simbolizou o futebol fina-flor. É só relembrar o gol de Rivaldo nos ingleses. A jogada inteira foi obra dele. Rivaldo só entrou com a última pincelada. A bem da verdade, uma bola colocada, magistralmente, no canto direito do goleiro Seaman.
O solo de Ronaldinho principiou no centro do campo. A aceleração, a ginga de corpo, a bola dominada a seus pés, a sequência de dribles e de fintas, a criação de novo espaço, a cada passo enfim, tudo lhe saiu à perfeição. Um verdadeiro poema que culminaria no passe cristalino. Puro feitiço. Só faltou, mesmo, uma trilha sonora de Pixinguinha.
Com todo respeito aos outros heróis do mundial, digo e afirmo: ninguém lavou mais a alma do bom futebol que Ronaldinho Gaúcho. Os anos próximos, certamente, hão de me dar razão. Porque ele continuará a ser o supercraque que é. No futebol de nossos dias, é jóia rara um jogador que seja, ao mesmo tempo, um solista admirável e um regente tão lúcido. Ronaldinho joga e faz o resto do time jogar.
A cantora Araci de Almeida, quando queria elogiar uma pessoa, dizia, como direi agora de Ronaldinho Gaúcho: ''Esse rapaz não resta a menor dúvida!''
São Caetano, esmeralda
O São Caetano não é de ninguém, mas acaba sendo de todos nós. Esta semana, ele pode ser consagrado o Campeão das Américas. Esse time é uma renovada surpresa no presente do futebol brasileiro. Grato presente. Já foi espoliado, quando derrubaram um estádio pra tirar-lhe o título de campeão brasileiro. Uma esbulho sem tamanho. Por essas e outras é que devemos sonhar com ele e por ele, quase campeão mundial de clubes.
A camisa azul do São Caetano merece um comentário. Pela história da cidade, a cor do time devia ser verde. Quem a criou, com o nome de Fazenda São Caetano, foi Fernão Dias Paes Leme, destemido caçador de esmeraldas. Acho que, em nome da grande aventura do ilustre bandeirante, a camisa do São Caetano tinha que ser verde. Verde esmeralda, a pedra da clarividência e da imortalidade.
Rápidas e rasteiras
Gilberto Silva dá o primeiro grande passo da independência financeira. Excelente volante, figura das melhores na seleção campeã do mundo. Jogou a Copa inteira, sem dar um carrinho sequer, recurso que ele próprio considera uma injúria ao futebol. O Arsenal ganha um belo jogador. Entrevistei-o, quando pintava no Atlético Mineiro. É a modéstia em pessoa. // / / / Carlos Heitor Cony é um tricolor histórico. Na celebração do centenário, ele recorda, em bela crônica, o bem que fez ao seu coração de garoto ter se apaixonado pelo Fluminense. / / / / / Durante a Copa, o francês Claude Simonet, presidente da federação francesa, torrou, num único jantar de cinco convidados, em Seul, o trocado de US$ 7 mil. O 'Journal du Dimanche' publica a nota do restaurante. Só uma garrafa do famoso borgonha Romanée Conti custou US$ 4,8 mil. Vale uma associação de idéias: os cartolas do futebol mundial são todos vinho da mesma pipa... / / / / / Um jovem brasileiro que estuda numa universidade da Alemanha pergunta o que eu achei da seleção alemã, finalista do mundial contra o Brasil. Achei simplesmente um horror! Futebol da idade da pedra. Futebol do fim do mundo. / / / / / Por falar em fim do mundo, é pra lá que parece está caminhando, como as estrelas cadentes, o Botafogo de Futebol e Regatas. Glorioso Botafogo, tu não merecias ter caído em mãos tão medíocres.





