NA GRANDE ÁREA - Preto no branco
A final do campeonato é alvinegra. Preto no branco. Idênticos de cor, Corinthians e Santos, no estilo, são bem distintos: um é frio, o outro, chispante. O Corinthians é sobriedade, o Santos, transbordante. O time do Corinthians é a cara do Parreira: não se brinca em serviço; o do Santos é a cara do Brasil: a vida é uma bola.
Será que daria pra indicar um time favorito? Na teoria, o Corinthians tem a chance de jogar por dois empates e por dois resultados iguais, o que não deixa de ser um bom negócio. A outra vantagem, que é o mando de campo na segunda partida, essa, pelo visto, está resolvida: os dois jogos serão em campo neutro.
De lavar a alma...
O Santos lava a alma do bom futebol, com o fulgor de seus guris. Diego e Robinho já conhecem o direito e o avesso de uma bola. Jogam com engenho e arte. Um atormenta defesas inteiras, com dribles e fintas irresistíveis; o outro é um fogoso organizador de jogadas. Ninguém pense, porém, que o time santista são apenas os floreios de Robinho e as cintilações de Diego. Quando ataca, o time do Santos vai fundo com uma brigada do maior respeito, seja pelos flancos (o lateral Leo é um ponta veloz e preciso), seja pela faixa central, usando muito bem seus volantes e seus meias de ligação. A turma é da melhor estirpe: é Renato, é Paulo Almeida, é Maurinho, é Elano, é o pivô Alberto, é o próprio Diego, cada qual mais onipresente que o outro. Daí, a consistência da equipe, reforçada, atrás, por uma dupla de zagueiros, Alex e André Luis, que além de não dar trégua aos rivais, sabe sair tocando a bola; Alex, principalmente, a quem considero o mais eficiente da temporada.
Em suma, o time do Santos tem sabido dosar suor e fantasia, a ponto de chegar à decisão do título como a maior atração do futebol brasileiro, neste final de ano; pela constância com que joga; pela harmonia do conjunto, avançando em ritmo vivíssimo, coleante: coreografia de serpentes.
Encantador de serpentes
O time do Corinthians, por sua vez, lembra aquele gênero de pugilista que se leva um cruzado na ponta do queixo, em vez de se esborrachar na lona, esboça um leve sorriso o sorriso que desconcerta o rival. Um primor de dissimulação.
Assim foi que o vi ao sofrer o primeiro gol do Fluminense, quarta-feira. No close da tevê, o semblante de Vampeta não acusava a mais leve preocupação. Aliás, os times de Parreira demonstram frieza, o tempo todo. A torcida, lá em cima, consumida de medos e apreensões, enquanto, lá em baixo, Kleber chega à linha de fundo, sereníssimo qual um monge budista. No lance do segundo gol do Corinthians foi exatamente assim: o lateral recebe a bola, curtinha, sob medida, passada por Gil. Um sôfrego teria centrado ou, quem sabe, teria chutado, mesmo sem ângulo. Ele, não. Quase caminhando, tocou a bola, sem pressa, e, com um meio-passe, meio-centro, deu a Guilherme o gol mais feito da noite.
O time do Corinthians não se perturba, jamais. É quase glacial. Parreira deve ter metido na cabeça dos jogadores que a grande inimiga da perfeição é, mesmo, a sofreguidão... A cadência do time é, sempre, ralentada, com a nítida intenção de conservar a bola em seu poder. Como se estivesse limando as arestas da bola. Se tiver que trocar 20 passes, 20 passes trocará, contanto que não a entregue, de graça, ao adversário. Daí, a idéia de cantochão que despertam as equipes de Parreira. Monocórdias e traiçoeiras como um batuque negreiro.
Bolinha pra cá, bolinha pra lá, será que fica nisso, o tempo todo? Negativo! De repente, alguém faz um lançamento agudo, profundo, explorando a velocidade de Gil, de Deivid e o faro de gol de Guilherme. A equação é infalível. Assim, precisamente assim, é o time de Parreira: insidioso, solerte. Encantador de serpentes.





