Na grande áreaPaulo Cesar Vasconcellos (interino)
Apenas
um jovem
O problema envolvendo Ronaldinho horas antes da partida decisiva com a França mostra que a estrutura da Comissão Técnica da Seleção Brasileira precisa mudar. Está sepultado, com anúncio da missa divulgada nos jornais, o tempo em que bastavam o treinador, o preparador físico e o médico. Hoje o futebol virou um negócio que exige mais cuidados com o seu principal produto: o atleta.
Que Ronaldinho estava estressado até um desinteressado por futebol, daqueles que na Copa do Mundo aproveita para ir ao cinema no horário do
jogo da Seleção, sabia. Não pode, mesmo um jovem de 21 anos, ter forças para cumprir tantas e tantas coisas. Ronaldinho tem um cinturão formado por pessoas que ou pedem ou exigem. Só fazem cobranças. Dizer que é seu parente dá status, afirmar que tem por ele amizade abre portas, garantir que o conhece cria atalhos.
No centro de todas estas exigências está um jovem que não pode tomar sorvete com a namorada, ir ao cinema, passar um fim de semana na Serra ou ficar na praia até o sol encerrar o expediente jogando futevôlei e depois bater papo com os amigos sem compromissos para depois. O estresse era tão previsível quanto o encontro do galã com a mocinha no fim daqueles filmes românticos que não se realizam mais.
Diante deste quadro era necessário que Ronaldinho tivesse a acompanhá-lo uma equipe mais preparada. Durante os 53 dias que a Seleção Brasileira fez
o trajeto Lesigny-Ozoir, o jogador mais procurado, filmado, fotografado, gritado foi Ronaldinho. Não dava um passo sem no mínimo um exército de olhos a acompanhá-lo. Ronaldinho riu, a informação corre o mundo; trocou de brinco, a notícia sai de boca em boca; está sem aliança, aí então é caso de se avisar em Marte, Plutão e Saturno.
O que aconteceu no Mundial foi apenas um desenho caprichado do que ele vive diariamente. Se pudessem, controlavam ou comercializavam até a sua respiração. Com este assédio é impossível até para um monge budista suportar tanta pressão. E o que deveria ser feito? Ora, o mais lógico seria ampliar a estrutura desta comissão para que um jogador como ele, e outros em menores tons, não ficassem desamparados. Por que não ter um profissional gabaritado - não de ocasião, o que nestas horas é muito comum - para acompanhar este grupo no qual cada ego bate a casa dos US$ 50 milhões?
São estrelas que recebem do país uma cobrança inimaginável. Não fazem pacotes econômicos, não se ausentam em votações importantes e tampouco se aproveitam da boa vontade alheia, mas recebem uma cobrança muito maior do que qualquer personagem que exerça funções tão importantes. Precisam, então, de apoio. Necessitam de alguém que os ouça.
O futebol é o único esporte que oferece resistência à entrada de profissionais que não tenham o vocabulário limitado a individual, atacar, defender, organizar e combater. Esquecem todos os profissionais envolvidos com o assunto, que as pressões sobre os jogadores estão cada vez maiores. Então porque não ajudá-los? Não são super-homens.
Companheiro de quarto de Ronaldinho, Roberto Carlos disse que o colega dormia mal e acordava cansado. Isso é mais importante do que driblar três de uma só vez no treino e marcar um gol de levar o prefeito a querer mudar o nome do estádio. Durante todo o Mundial, o duas vezes melhor do mundo se sentiu só. Não é de desabafar ou reclamar em campo. Basta ver que joga calado, mesmo que o esquema o sacrifique e o zagueiro do seu time jogue a favor do adversário. Acumula há algum tempo coisas que ninguém sabe. Está cansado, triste e deprimido, principalmente porque não conseguiu ser o nome da Copa do Mundo.
O apoio dos amigos e da família será importante. Estamos diante de uma pedra preciosa, que insistem em jogar contra a parede para ver a capacidade de resistência. O que os zagueiros precisam dentro de campo, Ronaldinho precisa fora dele: AJUDA. Deixemos ele descansar, ser um anônimo e vamos parar de cobrar como se tudo de bom e ruim tivesse que passar pelos seus pés. A crise que teve antes do jogo poderia ser evitada caso os olhos de todos - Comissão Técnica, principalmente - olhassem para Ronaldinho e não vissem apenas uma máquina de arrancadas, dribles, chutes e gols.
Gol contra de Garrincha
A realidade do futebol é, em si, apaixonante, mas estou convencido, hoje, de que a realidade invisível que o torcedor procura criar nos domínios da imaginação, essa realidade desconhecida e fantástica, tem contribuído de maneira decisiva para o prestígio fascinante desse admirável esporte.
Que realidade fabulosa não estaremos nós da atual geração a construir para o futuro do futebol e da legenda de um jogador como Garrincha? Alguém contará como verdade inquestionável uma história mais ou menos assim:
’’...o Garrincha, aquele não existiu. Pra começar, era aleijado: tinha uma perna mais curta que a outra, as duas muito tortas para o mesmo lado e tinha um olho fechado, o esquerdo... não era fechado, de todo, mas tinha um defeito lá qualquer. Bom, mas isso não vem ao caso. Um dia, Botafogo x Vasco, dois a zero, dois gols dele, Garrincha. De repente, no finzinho do jogo, Garrincha apanha a bola no meio do campo. Driblou o primeiro... Coronel, driblou o segundo, Orlando, driblou Belini, driblou Paulinho, um atrás do outro; driblou o goleiro - um goleiro chamado Miguel - e, na hora de marcar, voltou com a bola! Voltou com a bola, fazendo embaixada, continuou correndo na direção do campo do Botafogo, entrou na área do seu próprio time e, diante do Manga, que era o goleiro do Botafogo, deu um balãozinho para dentro das redes, marcando, contra, o gol mais aplaudido de todo o jogo.’’
Tudo fantasia, mas o que seria do futebol sem a mitomania das arquibancadas?
- Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - E_MAIL: [email protected]

mockup