Não vi o lance mais polêmico do meio da semana. Quando Jabá fazia suas firulas, no Coritiba-Santos, eu estava noutro canal. Mas ouvi de pessoas confiáveis que o garoto não tripudiou de ninguém. Foi, portanto, descabida a punição que lhe aplicou o árbitro Gaciba. Sei que é tênue o fio que separa um floreio de um menosprezo.
Nessa questão, o melhor exemplo de tripúdio é aquele tendo o jogo praticamente ganho pelo Corinthians, Edilson resolveu fazer uma tabelinha que culminaria com a bola, equilibrada no cocoruto da cabeça, escorregando, cinicamente, pela nuca. Mais que desdém, uma injúria. Ali, sem sombra de dúvida, cabia uma reprimenda do árbitro. Todos se lembram do sururu que Edílson acabou provocando. Fiquei solidário com a indignação dos jogadores do Palmeiras, embora deplorasse a reação violenta.
O árbitro Gaciba revive fato semelhante, dos anos 50. Cenário: Maracanã; personagens principais: Garrincha, o lateral Jorge, do América do Rio e o juiz Amilcar Ferreira. Garrincha, instigante, pára a bola diante de Jorge. Passa o pé direito por cima da bola. Faz-que-vai-mas-não-vai. De repente, o árbitro apita e marca tiro livre contra o Botafogo. A seu juízo, Garrincha estava desrespeitando o adversário. Amílcar tomou uma vaia cósmica.
Eu, no lugar do Gaciba, não só pediria desculpas ao Jabá como o felicitaria pela boa intenção de dar um pouco de graça a um futebol que anda tão sisudo.
Boas coisas da semana
E lá se vai o nosso Campeonato Brasileiro, repleto de imprevistos, de surpresas e de espantos que são a essência do futebol, graças a Deus! Quem diria que o Flamengo, então, privado de Athirson, seu melhor jogador, daria a triunfal suadeira que deu no temível Atlético Paranaense? E nem acredito que o Maracanã tenha pesado na história. Sempre achei que, pra uma equipe embalada como a paranaense, o Maracanã guarda um certo ar de campo neutro. Além do que, o time do Flamengo não anda nada bem das pernas, ultimamente. E quem, não tendo visto o jogo, pensar que o Atlético jogou de salto alto, engana-se, redondamente. O jogo foi jogado e muito bem jogado. Aliás, como os outros que procurei acompanhar, de controle-remoto na mão.
O Inter-Palmeiras não me empolgou menos. Pau puro. Lá e cá. Pena que não eu não tenha o dom da onipresença, virtual que fosse, pra que pudesse ver com que armas a Portuguesa conseguiu desbancar o sempre indigesto São Caetano.
E, na quinta, a destacar, primeiro, a vitória do Guarani, que derrotou o Cruzeiro, em Minas. Um verdadeiro nocaute no time que, com Luxemburgo ainda não acertou o pé, pra valer. Jair Picerni, bom de papo, bom de trato. Depois, a vitória do Fluminense. Derrotar o Gama em casa é obra só de gente grande; a segundo registro, esse funesto, foi o cachação que o Juventude deu no Botafogo. Não que tenha sido surpresa. O Juventude tem bala pra golear qualquer time. E o Botafogo... bem, o Botafogo, como diria o poema de Quevedo, só causa ''fúria e pena.''
Entrou e não entrou...
Ser ou não ser, eis a questão que a vã filosofia humana jamais decifrará. Nem Shakespeare, nem todos os críticos que viram o jogo Paysandu 2 x 0 Vasco, no Mangueirão de Belém. Eu vi o teipe umas 10 vezes e não cheguei a conclusão alguma. Ou melhor, conclui, sim; conclui que pode, perfeitamente, ter entrado, mas também, pode, perfeitamente, não ter entrado. Uma criatura, uma única, não titubeou: foi o Raimundo Nonato, o bandeirinha da direita. Mal a bola entrou (ou não entrou) o moço disparou, em resoluta corrida, e foi se plantar na linha central. Segundo o rito da arbitragem, essa é a senha que dá ao árbitro a indicação de que foi gol e pronto. Uma coisa é inegável: Nonato, mais que ninguém, tinha o ponto de vista privilegiado pra julgar o lance. O goleiro do Vasco da Gama, ao agarrar a bola, estava bem atrás da linha da meta. Mas, e a bola? Ninguém pode afirmar que, por estar grudada nas mãos do goleiro, a bola tenha ultrapassado a linha. A regra é límpida: meia bola dentro não é gol. Mais ainda: 99,9% de bola além da linha, ainda assim, não pode ser proclamado o gol.
Ser ou não, eis a questão que angustia a humanidade, com exceção de Raimundo Nonato, o alma leve.

mockup