NA GRANDE ÁREA - O JOGADOR-SÍMBOLO
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de dezembro de 2002
Armando Nogueira 
A vitória do time do Santos lava, espero que de vez, a alma do futebol brasileiro. Muito tempo se passou, a gente tendo que aguentar a exaltação do tal do futebol de resultados, que era um tormento. Clichês de amargar: ''o que importa é vencer''; ''é preferível ganhar jogando feio a perder jogando bonito''; ''a falta faz parte do jogo''. E os times a nos impingir medíocres, botinudos, cabeças-de-bagre. Ninguém atacava. Todo mundo só contra-atacava. O selo da eficiência era a retranca. O nosso futebol virou pastiche do futebol europeu. Futebol de prancheta.
Todo louvor a Robinho. Todo louvor a Diego. Esses dois garotos trazem de volta o encanto do nosso estilo de jogo. Mas eu me permito eleger como símbolo do renascimento outro guri de 20 anos, o volante Renato, também, campeão brasileiro. Pelo bem que ele encerra pro futebol brasileiro.
Vamos recuar alguns meses. A seleção brasileira já estava na Ásia, pronta pra estrear na Copa do Mundo. O ''capitão'' da equipe se chamava Emerson. Que mais sabia fazer em campo o Emerson? Fazia faltas e mais faltas. Não desarmava ninguém que não fosse atropelando meio mundo. Um estabanado. Era, então, dentro do campo, a projeção do próprio treinador. Mais que isso, Emerson representava um modelo de jogador institucionalizado no futebol brasileiro. Quem não tivesse na meia-cancha pelo menos um gladiador não iria muito longe, em qualquer competição.
Emerson, brincando de goleiro, luxa o ombro e deixa o time. Entra, então, como efetivo, o volante Gilberto Silva. A emenda foi melhor, muito melhor que o soneto. O mineiro já insinuara, no campeonato brasileiro, um jeito de jogar mais refinado, com um senso de marcação que lembrava os grandes especialistas da posição.
Renato é um volante de classe. Pertence à mesma linhagem de Gilberto Silva. Revive o estilo de Zito, de Clodoaldo. Marca, desarma, passa, dribla, apóia o ataque. É completo. Mais que isso: Renato detém um recorde, certamente, mundial, que é ter disputado 30 partidas, sem tomar um único cartão, nem amarelo e muito menos vermelho. Isso é quase inacreditável. Afinal, é ali, precisamente ali, por onde ele circula, que mais pintam os cartões do ''fair play''. É ali que os técnicos mandam ''matar a jogada''. E, no entanto, todos sabemos que é ali que o gol começa a florescer.
Assim como os ''cabeças-de-bagre'' estigmatizaram a posição, no mínimo, durante 15 anos, assim também, todos temos um sonho: Renato reabilite a reputação do volante, do meia-cancha, do apoiador, que seja qual for o nome dado a um dos pilares de uma equipe de futebol.
Renato-renascimento.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- No tópico das curiosidades do campeonato, faltou registrar que os anfitriões empataram 21 por cento dos jogos em casa e perderam 24 por cento. Vitórias e empates somam cerca de 80 por cento. Quer dizer: certa está a nova direção do Flamengo que, agora, vai ampliar as arquibancadas de seu próprio campo, passando o estadinho da Gávea a ter 25 mil lugares.
-Feliz é o Santos que, depois de tanto procurar, reencontra seu próprio destino, íntegro, intacto como a glória que o imortalizou da década de 60.
- Pergunta-me um jovem leitor que, volta e meia, me vê aqui a encher a bola de Tostão: ''O Tostão era bom mesmo?'' Dou-lhe, então, como resposta, a frase com que eu defino Tostão, num dos meus livros: ''Tostão driblava em silêncio, em silêncio, passava, em silêncio fazia um gol de vitral''.


