NA GRANDE ÁREA - O futebol no poder
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terça-feira, 29 de outubro de 2002
Armando Nogueira 
Lula na Presidência da República quer dizer, entre tantas novidades, que, finalmente, o futebol chega ao poder. Desde que me entendo por gente, jamais tive notícia de um presidente brasileiro ligado, afetiva e ostensivamente, a qualquer clube. Lula é o primeiro. Ele torce pelo Corinthians. Dizem que, mocinho, torcia de brandir a bandeira do Corinthians nas arquibancadas do Pacaembu.
Houve outro presidente-torcedor: general Médici, que era gremista assumido, mas que, positivamente, não tinha o cheiro de povo que tem Lula. O reino dos militares era tão hostil à chamada plebe ignara que não cativava ninguém. A galera desconfiava até que aquele radinho de pilha no ouvido do general era pura encenação popularesca. O general Figueiredo, outro presidente pelo avesso, se dizia Fluminense, mas gostava, mesmo, era de cavalo.
Venho do governo democrático de Getúlio Vargas, anos 50, e nunca ouvi ou li uma única palavra dele sobre futebol. Aquele só pensava em política, dia e noite. Antes, tivemos o general Eurico Gaspar Dutra, que nunca deu a menor bola pra futebol. Diziam que Juscelino era América-MG, mas, pelo menos quando presidente, nunca se abriu, publicamente. Jânio e Jango jamais foram apresentados a uma bola. Entre Getúlio e JK, houve o presidente Café Filho, pra variar, também desligado de futebol. Aliás, desse, eu posso falar, de cadeira.
No meu tempo de repórter, dividido entre a cobertura esportiva e a cobertura política, acabei conhecendo-o de perto. Um dia, Café Filho me contou que, num banquete em sua homenagem, em Bogotá, a primeira dama da Colômbia, sua vizinha de cadeira, começou a falar de Heleno de Freitas, que, então, fazia grande sucesso num time de Barranquilha. Madame não parava de elogiar: Heleno é um jogador fabuloso; Heleno é um galã de cinema; Heleno é lindo, usa cabelos glostorados à la Carlos Gardel; Heleno endoida o mulherio da Colômbia.
Madame falando e o presidente Café Filho, em silêncio, boiando. Não dizia xongas. Simplesmente, jamais ouvira falar aquele nome, embora Heleno já fosse ídolo nacional, desde os anos 40, quando, centroavante, formava, com Tesourinha, Zizinho, Jair e Ademir, a mais famosa linha atacante do futebol sul-americano.
O presidente Café Filho me confessaria que, naquele jantar, tinha passado o maior vexame de toda a sua vida pública. De volta ao Brasil, passou a ler, ainda que por alto, notícias de futebol.
Não deixa de ser grato ao futebol que tenha chegado à Presidência um autêntico torcedor. Ninguém vai pretender que Lula deixe de torcer pelo Corinthians. Seria querer o impossível. A paixão clubística pode até ser abrandada, extinta, nunca. O coração de Lula tem todo direito de continuar pulsando pelo Timão. Nem por isso, porém, ele poderá deixar de incluir o esporte entre as prioridades do novo contrato social do Brasil.
É o que espera dele, ansioso, o futebol brasileiro, que há tempo vem clamando por uma vassourada moralizadora.
O tamanho do Goiás
Araújo, do Goiás, é muito bom de bola. Gosto de vê-lo jogar. É rápido na cabeça e nos pés: no pensamento e na ação. Tem as centelhas do artilheiro, mas joga pro time: podendo passar, ele passa, podendo chutar, ele chuta e chuta bem, com precisão e potência. Outro dia, falei bem do futebol de Araújo. Mas falei de um jeito que magoou torcedores do Goiás. Estranhei que, até hoje, nenhum clube grande tenha querido contratá-lo. Se não era minha intenção desmerecer o Goiás, acabei deixando esta impressão entre seus torcedores.
O leitor Josafá Amorim, meio chateado comigo, me dá mil informações, que eu desconhecia, sobre o clube goiano. Por exemplo: o Goiás tem dois centros de treinamento, tem duas sedes, tem oito campos de treino. O salário dos jogadores está em dia. O citado Araújo ganha R$ 60 mil por mês. É o dobro do teto salarial do Palmeiras, atualmente, com duas exceções: Arce e Marcos, os mais bem pagos do Parque Antártica.
Enfim, Josafá me dá um banho de Goiás e quase me manda dobrar a língua quando eu quiser falar do Goiás, coisa que passo a fazer, de hoje em diante.


