NA GRANDE ÁREA - O feitiço do campeonato
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quarta-feira, 04 de dezembro de 2002
Armando Nogueira 
Quem tem razão é o Guga, falando com a autoridade de alguém já canonizado pela fama. Outro dia, ele me dizia que o Kaká não deve esquentar a cabeça com o assédio da glória. O Kaká tinha se queixado do cerco asfixiante da notoriedade. Não tem mais nem vontade de ir ao cinema, pensando na multidão de menininhas voando em cima dele, abelinhas desvairadas.
A teoria de Guga é que, no futebol brasileiro, pinta sempre um novo ídolo, a cada 15 minutos. O herói que chega alivia a barra do herói já exposto na berlinda do sucesso. Duro, completava ele, com senso de humor...duro, mesmo, é no tênis brasileiro... (Quanto tempo levará até que apareça um novo Guga?).
Kaká não caiu de moda, mas o entusiasmo das moças, agora, já começa a engrossar em torno de outro jovem astro que desponta no futebol: o moço Diego. Ando recebendo mensagens de garotas, todas assanhadinhas com a figura do novo astro do futebol.
É claro que o ardor feminino pouco tem a ver com a bola do atacante do Santos, cujo talento, por sinal, é justamente, o que nos toca. Diego vai pintando como um artista do jogo. Quando amadurecer, bendito fruto do futebol-arte. Exerce, como poucos, o dom de conduzir a bola, coladinha nos pés. O equilíbrio do corpo (por ora, só equilíbrio) me lembra o inefável Tostão, cujo centro de gravidade se situava abaixo do nível do mar, como os saudosos bondes da Light. Gente assim nunca perde o prumo. Quando cai, é derrubado. Nilton Santos, bem mais alto que os dois, também tinha notável domínio do próprio corpo.
Diego forma com Robinho uma dupla promissora. Arco e flecha. Robinho tem duas pernas que, no instante do drible, viram 10. Falo em drible, mas o que me empolga no estilo de Robinho é mesmo a finta estonteante. O menino tem o jogo de cintura que provém da raça fresca.
Não poderia cometer a injustiça de restringir aos dois guris o sucesso do time do Santos. No meu entusiasmo, há lugar pra outros jogadores como Alberto, Elano, o lateral Léo, o zagueiro Alex, todos eles irrepreensíveis, tanto no rigor técnico como na disciplina tática. No coração como nos músculos.
Honras, também, ao treinador Leão, que vem montando essa equipe, com esmero e forte liderança, já faz tempo. Sempre ouvi dizer que Leão manda soltar o sarrafo no adversário. Pois bem, no jogo de domingo passado, contra o Grêmio, o time de Leão fez apenas nove faltas no primeiro tempo e outro tanto, no segundo tempo. É média de time que sabe jogar, de time que gosta de jogar, de time comandado por alguém que tem demonstrado um louvável apreço pelo bom futebol. Justiça seja feita.
O futebol do time do Santos tem sido, ultimamente, o feitiço, o regozijo do campeonato. Se sairá campeão, ninguém sabe. Mas que bem merece todos sabemos.
Em estado de graça
Não há quem discuta: o Fluminense está mesmo ungido. Futebol por futebol, o time está devendo e não é pouco. Em compensação, na arrancada do campeonato, parece ter baixado na equipe um certo estado de graça que prenuncia glórias. Nelson Rodrigues, o único profeta que deu certo no futebol, nem precisava consultar oráculos. Pra ele, o Fluminense vencia antes, durante e depois de cada partida, tocado, sempre, por encantamentos que escapam à nossa vã filosofia.
No jogo com o Corinthians, domingo, houve dois lances típicos da proverbial cabala tricolor: a bola que bateu na trave, no começo da partida, como nos tempos do ''leiteiro'' Castilho; depois, o pênalti extraviado por Guilherme, no finzinho do jogo. Guilherme anda dizendo que escorregou no momento do chute. Pois sim. Mal sabe ele que, no instante do chute foi sutil e cinicamente desequilibrado por um tranco do ''Gravatinha'', maliciosa assombração que Nelson inventou pra consumar as grandes cavilações do Fluminense.
O Corinthians que se cuide, hoje. O time do Fluminense já subverteu a lógica da tabela, eliminando o São Caetano. Contra o Corinthians, metade da missa já foi rezada, no forno colossal do Maracanã.


