NA GRANDE ÁREA - Farinha do mesmo saco
Perder do Boca é do jogo. Eu sentia que só um milagre teria dado ao Santos a Libertadores. A esperança de título era remotíssima, pela estupenda vantagem de dois gols conquistada na Bombonera. O time do Santos, bom exemplo de futebol ofensivo, acabou destroçado por um adversário nada brilhante, mas implacável.
Houve duas partidas, o Boca venceu as duas. Venceria outras mais se continuasse tendo a sorte de não levar gol antes do Santos. O padrão tático do Boca Juniors é encardido. Chama-se retranca. Torna o jogo uma coisa meio sem graça. Cheira a retrocesso. Parece que eu estou vendo jogar um time italiano de 50 anos atrás, dirigido por Helênio Herrera.
Individualmente, o time do Boca é essencialmente argentino; coletivamente, não é. O toque de bola, jogador por jogador, é soberbo. A retranca, porém, desfigura o time e renega a maravilhosa escola de futebol da Argentina, a única no mundo que rivaliza com a brasileira.
Como eu disse lá em cima, perder é do jogo. O que não é do jogo é ver a CBF levar, no peito, os melhores jogadores do Santos pra uma tal de Copa Ouro, um caça-níqueis igual à Copa das Confederações.
Outro dia, o São Paulo foi proibido de jogar um torneio semelhante, no qual embolsaria US$ 2 milhões. A CBF vetou, alegando que a prioridade do calendário é o Campeonato Brasileiro. A regra só não vale na hora de desfalcar cinco/seis equipes pra que Ricardo Teixeira faça média política com a Fifa e com a Confederação dos cucarachos.
Uma informação que o torcedor não deve ignorar, mas que convém repisar: nos próximos dias, os clubes, cujos times acabam de ser desfigurados pela seleção sub-sei-lá-o-que, vão reeleger Ricardo Teixeira, certamente, por aclamação.
Tudo farinha do mesmo saco.
O ''bumba-meu-boi''
O time do Corinthians anda jogando muito feio. Não tem harmonia. É ofensivo, sem dúvida, mas se ressente de alguém que ponha ordem na zorra. Até hoje, não apareceu alguém capaz de assumir o bom nível de regência do volante Vampeta. Como bem diz o Zé Geraldo do Couto, instaurou-se no time do Corinthians o padrão ''bumba-meu-boi'' de antigos carnavais. Aliás, o desarranjo técnico do Corinthians está parecido com o do São Paulo.
No jogo com o Fluminense, quem salvou o time foi um raio chamado Liedson, que, a cada jogo, se impõe como o artilheiro mais fulminante do campeonato. Ele pensa, delibera e executa, sempre, um segundo antes do seu marcador, por mais vigilante que seja o zagueiro rival.
Aliás, Liedson está perdendo aquele semblante escaveirado de menino carente. Com certeza, a nutricionista do Corinthians melhorou seu prato.
Mais um Diego
Finalmente, vi jogar o Diego, do Inter, sobre quem já venho ouvindo falar e falar bem, há algum tempo. Que bola inteligente traça o garoto! O pênalti que sofreu de Maldonado culminou uma sucessão de dribles muito bem dados por alguém que já nasceu sabendo das coisas. Diego é um guri de 18 e, tal como o do Santos, já é craque, mesmo antes de ser gente grande.
Rápidas e rasteiras
Alguns leitores me pedem uma opinião sobre a cena pós-jogo em que o elenco do Santos, reunido na borda do campo do Morumbi, mesmo sem rosário na mão, rezou em coro duas contas da Ave-Maria e uma do Padre Nosso. Confesso, humildemente, que fiquei perplexo, sem saber qual tenha sido a intenção dos rapazes. Será que foi penitência? Terá sido emoção da derrota? Seria alma sangrada? Enquanto isso, o time do Boca cantava um tango argentino... // / A derrota do Santos foi celebrada com risos e aleluias, noite adentro, por corintianos, são-paulinos e palmeirenses. Na mesma hora, em Buenos Aires, a torcida do River, guardava um minuto de nojo pelo triunfo do Boca. Como se vê, são todos co-irmãos...
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