NA GRANDE ÁREA - Docemente constrangido...
Ronaldo é um astro e como qualquer corpo celeste tem duas faces: uma, luminosa, solar, a luzir dentro do campo; outra, nebulosa, sombria, luscofuscando-se fora de campo. Em 98, na partida final da Copa, todo mundo saiu por aí, querendo saber, sem ter resposta, o que foi que aconteceu com o Ronaldinho. Agora, finda a Copa, o craque volta a sombrear sua vida, dessa vez, nas relações pessoais com o Inter, de Milão. E todos perguntam, de novo: o que é que está acontecendo com o Ronaldinho? Afinal, o Inter foi impecável, ao longo de um calvário que durou cerca de dois anos. Pagou-lhe, pontualmente, os vencimentos, tendo bancado, inclusive, as duas custosas cirurgias do doutor Saillant. Pelo menos, é o que todo mundo diz.
Dessa vez, tenho cá minha versão: acho que a cabeça do craque esteja sendo feita por seus empresários. Essa história tem dedo de atravessador. Vamos raciocinar: o fim do passe levou o clube a preferir fazer contratos longos, com cláusulas pesadas de rescisão. Foi por isso que o Inter pegou Ronaldo por 10 anos. Parece um bom prazo de vínculo pra diluir o valor de um contrato astronômico. Além do que, os clubes devem ter sacado que assim, e só assim, o jogador se identifica com a camisa e, com o tempo e as glórias, acaba fortalecendo a fonte da paixão, formada pelo tripé clube-jogador-torcedor.
O diabo é que existe a figura do empresário que não é, senão, o grande atravessador nos negócios do esporte. E o que é mais estarrecedor: com o aval da Fifa. Seu trunfo é o troca-troca. Quanto mais entra-e-sai houver, na vigência do contrato, mais dinheiro pinga, aliás, jorra, na algibeira do empresário. No caso de Ronaldo, por exemplo, se o agente Alexandre Martins conseguir levá-lo do Inter pro Real Madrid, digamos, por 100 milhões de dólares, o jogador vai embolsar 15 milhões e o atravessador, 10% de 15, que somam um milhão e meio. Vamos e venhamos, amigos, estamos diante de uma bela cifra caída do céu no bolso de alguém que jamais assinou uma súmula e só conhece a bola, de vista, vagamente. É claro que o jogador acaba aceitando a jogada, docemente constrangido...
Quem conhecer outra versão mais convincente, por favor, o marquês, aqui, será todo ouvidos. Não vale, é lógico, o papo de que o treinador do Inter não quer o Ronaldo. Que eu imagine, só o treinador do Íbis pode torcer o nariz pra um jogador fenomenal que acaba de sair campeão do mundo, com todas honras de artilheiro absoluto.
Uma comparação
Domingo passado, o jornalista Pedro Redig foi assistir ao jogo de estréia de Romário, com a camisa do Fluminense. Redig é brasileiro e mora em Londres, há muitos anos. Matou saudades do Maracanã, o estádio de sua juventude, que vivia, então, uma tarde esplêndida. Ao ouvir o alto-falante dizer que havia mais de 60 mil torcedores, Redig se lembrou logo do Old Trafford, o lendário estádio do Manchester United. Fez as contas: 60 mil, vezes 50 dólares, que é o preço do ingresso lá, dá, redondinhos, três milhões de dólares. No Maracanã, a mesma lotação não rendeu mais de 180 mil dólares. É dispensável dizer que o grosso da renda foi apreendida pela Justiça do Trabalho. Pra variar, o Fluminense, tal qual a maioria dos clubes, deve os olhos da cara a ex-funcionários e a jogadores que por lá passara sem ver a cor do chama do vil metal.
No dia seguinte, Redig me dava as seguintes informações adicionais: o Manchester joga, em seu estádio, 20 partidas, por temporada. Sempre, de casa cheia. E se, por qualquer motivo, o estádio não lotar, pouco importa: 90% dos ingressos já foram comprados antes de começar o campeonato. Vamos, então, fechar o balanço: 20 partidas, em casa, a três milhões cada uma, chegaremos a simplinhos 60 milhões de dólares. Só em bilheteria. Sem esquecer outros 60 milhões em licenciamentos, além de uma polpuda parcela de patrocínios e outra não menos expressiva, de direitos de televisão.





