NA GRANDE ÁREA - De pai pra filho
Jogo São Paulo x Santos, no meio da semana. Corre o primeiro tempo. O predomínio do Santos é asfixiante. O leitor sabe muito bem o que seja um sufoco. O time acuado não consegue ver a cor da bola. Não ganha um só rebote. Pois foi o que ocorreu no Morumbi. Não estarei exagerando, se disser que, em 45 minutos, o time do São Paulo não teve o domínio da bola por mais de cinco minutinhos.
Me lembro que o comentarista do Sportv repetia, a todo instante, como um refrão, que Kaká não existia no jogo. O santista Paulo Almeida não o deixava respirar. Chegava junto e, sempre, com redobrada energia. Grudado na pele do craque como um sanguessuga. A observação do analista era verdade pura. Mas, pensava eu, cá com meus botões: todo craque tem, sempre, uma carta na manga do colete.
Intervalo. O jogo recomeça e, na mesma batida do primeiro tempo. Os garotos da Vila, velozes, determinados, infatigáveis, não dão refresco. Finalizam pouco, é verdade, mas é aquela coisa: água mole em pedra dura...
Acontece que, no meio do caminho do Santos, havia um iluminado que se chama Kaká. Eu vivo dizendo, há dois anos, que o Kaká é a maior revelação do futebol brasileiro. Com perdão dos doutores, discordo de quem, por cautela, prefere dar tempo ao tempo pra ver, mais adiante, se o rapaz é ou não é um jogador excepcional. Pra mim, Kaká, ainda no berço, já era craque.
Em dois momentos de soberba lucidez, coisa de três minutos, Kaká subverte a ordem natural da partida. Faz uma jogada pessoal que acaba num pênalti do goleiro santista, derrubando-o, em desesperada instância. Em seguida, depois de uma infiltração estonteante, ele me entrega a Reinaldo uma bola daquelas típicas de pai pra filho: bola de meio-gol. Foi um passe de curta distância, uma obra-prima de precisão e de ''timing''.
Saia dessa, Ronaldo!
O deputado Ronaldo César Coelho pensa que não, mas está fazendo um tremendo gol-contra na sua imagem. Ele é o relator da Medida Provisória de moralização do futebol proposta pelo governo. Pois bem, o nosso Ronaldo, pra surpresa minha, poupa dos rigores da nova lei casas como a CBF e as federações estaduais. Pelo menos é o que ele propõe no relatório, de sua autoria, que deverá ser votado pela Câmara Federal até 15 de novembro. Alega Ronaldo que a CBF não é entidade comercial. Santo Deus! Teixeira vende a camisa da seleção, vende jogo, vende a alma do futebol brasileiro. Que diabo é isso senão comerciar?
Ora, amigos, todo mundo sabe que a falta de escrúpulos no futebol brasileiro não é um mal só da cartolagem dos clubes. No duro, no duro, o foco a atacar é, justamente, a CBF e sua corte de vassalos entocados nas federações. É essa gente que, há séculos, dá lições de como tratar a pontapés a ética esportiva.
Se qualifico de gol-contra o relatório da MP, não faço mais do que endossar a opinião de milhares de leitores e telespectadores que me mandam mensagens candentes. É o torcedor preocupado com o mal que pode causar à idoneidade do futebol uma canetada infeliz do relator Ronaldo César Coelho.
Saia dessa, meu bom Ronaldo!
Esperteza tem hora
Sou um confesso admirador do futebol de Rogério Ceni. Ele é o melhor exemplo de goleiro moderno que há no Brasil. É tão bom com os pés quanto com as mãos. Coisa rara no ofício. A par das virtudes técnicas, ele exerce uma saudável liderança no time do São Paulo. Dessa vez, porém, Rogério perdeu ponto no quesito disciplina. O que ele fez não se faz.
Num surto de cólera, o goleiro do São Paulo fez um escarcéu dos diabos só porque o árbitro, com toda razão, mandou cobrar de novo o pênalti que ele defendera, ilicitamente. O juiz auxiliar viu Rogério sair do gol antes, muito antes que o cobrador tocasse na bola. Rogério devia ter sido expulso.
É claro que a arbitragem já devia estar de olho em Rogério. Tanto que o bandeirinha plantou-se na linha de fundo, bem pertinho das traves, absolutamente atento aos movimentos do goleiro. A verdade é que Rogério já vem ignorando a regra do pênalti, não é de hoje. A astúcia até que tem seu charme, mas, quando a esperteza vira costume, um dia, acaba dando na vista. Deu.





