Em matéria de futebol, venho de outras eras. Sou do tempo em que o torcedor era o 12º jogador da equipe. Cantando e gritando o jogo todo, a torcida contagiava seu time, atiçando a chama ardente que, na batalha, faz os verdadeiros heróis.
Outro dia, no Maracanã, no jogo do Flamengo com o Cruzeiro, não foi bem assim: a torcida rubro-negra passou o jogo inteiro a hostilizar, justamente, o jogador que se imaginava fosse o grande ídolo do time o infatigável Athirson, que sempre ensopou, com o honrado suor de seu corpo, a camisa do Flamengo. Ora, a vaia que fustiga um jogador, certamente, acaba por abalar o moral do resto da equipe. Edílson confessaria, mais tarde, que o time ficou chocado com a perseguição ao colega.
Por que o torcedor rubro-negro repudiava tanto o lateral Athirson, aquela tarde? Mágoa, meus amigos. Desconfiança, desamor, dor-de-cotovelo. Athirson está indo embora pro italiano Juventus, clube ao qual pertence de direito.
A mercantilização do futebol profissional vem destroçando os laços de afeição e fidelidade que sempre uniram torcida e jogador. Ninguém mais é verdadeiramente idolatrado por ninguém. Não dá tempo. O jogador não simboliza mais o clube. Deixou de ser o espelho no qual o torcedor contemplava sua própria imagem. Ele sente que o jogador está ali, de pernoite, qual garota de programa. Dá um beijo espúrio no escudo da camisa e, ato seguinte, some do clube, atraído por um mercador que o vende pra Conchinchina. São guerreiros de aluguel. O Romário não largou o Fluminense em plena competição e foi embolsar um milhão e meio de dólares no deserto? O Marcelinho, mal chegado ao Vasco, já está sendo tentado pelos petrodólares do mesmo Qatar. Kaká, que pintava como símbolo do São Paulo, começou a ser vaiado tão logo correu a notícia de que Ele já estaria com um pé no futebol europeu.
O torcedor continua fiel à camisa, à bandeira, à tradição do clube do seu coração. Mas já não reconhece o jogador como encarnação de sua paixão. É aqui que está o doloroso xis do futebol.
Ele não se conforma que o jogador, nos dias atuais, seja apenas um ente mercadológico que veste a camisa furta-cor do dinheiro, venha da China, venha do Qatar. Por isso, o jogador número 12 não conta até três pra tratá-lo com um reles oportunista, um trânsfuga.
E tome vaia.
Show de intolerância
No jogo Corinthians x São Paulo, domingo passado, houve uma cena que merece uma séria reflexão sobre a deturpação do espírito do jogo de futebol: o atacante Rico, do São Paulo, ensaia um drible no zagueiro Anderson do Corinthians. No que passou o pé por cima da bola, recebeu um rapa. Foi derrubado. Ato contínuo, outros jogadores corinthianos, enfurecidos, cercam o atacante Rico, ameaçando-o, aos palavrões. Em nome de que valores os corintianos, indignados, ameaçavam comer vivo o rapaz? Rico não estava debochando de ninguém. Apenas e tão somente, desafiava o adversário a tomar-lhe a bola. O drible e encenação da finta fazem parte do jogo. Tecnicamente, taticamente, eticamente. O árbitro devia ter advertido os corintianos com um oportuníssimo cartão amarelo. Foi um show de intolerância que atenta contra a graça do futebol.
Vai chegar o dia em que correrá risco de vida o jogador que der um passe de calcanhar ou fizer um gol-de-letra.
Rápidas e rasteiras
A imprudência do capitão Paulo Almeida, que deu de mão beijada o gol do São Caetano (1x0), com um drible mau sucedido, na zona do agrião, sequer arranhou o ambiente no Santos. Prova de que o técnico Leão, um notório pavio curto, só está pensando, mesmo, é na Libertadores. / / / Está na cara: quem dá personalidade ao time do São Paulo é mesmo Kaká, um craque, com todas as letras, ainda que longe do esplendor físico.
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