NA GRANDE ÁREA - Bailarinos do céu
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terça-feira, 22 de outubro de 2002
Armando Nogueira 
No domingo que passou, vi lindos gols. Paulinho, do Atlético Mineiro, destroncou o cruzeirense Cris, com um drible fogoso, culminando a jogada com um poderoso chute, muito bem colocado, de canhota, que é a sua perna de estimação. Marcinho, do Corinthians, não deu por menos, com seu gol de arrojo: encarou duas bolas divididas e desferiu um chute que quase fura a rede. O gol de cabeça, de Liédson, no Vitória, e o fulminante petardo de Ricardinho, contra o Guarani, foram outros dois momentos emocionantes do futebol.
Nada, porém, me arrebatou mais que o show aéreo que deram três ases da aviação acrobática, no Campeonato Brasileiro; mais precisamente, no ''box'' do Aeroclube do Brasil, na Barra da Tijuca. Richieri, Adilson e Gunar são três magníficos campeões, três magos, entregues, de corpo e alma, a um delírio dionisíaco, em pleno céu.
As figurações aéreas lembram o poético desafio do bailarino: tensão e queda livre. Na manobra acrobática, o piloto e seu avião oscilam entre a calma e o frêmito, entre a síncope e o fervor. O avião empina o corpo, céu acima, em busca do ponto morto. Ponto de partida que precede a coreografia estonteante. Sucede-se, então, um repertório de manobras, espécie de ousado repto à lei da gravidade.
O avião se transfigura. Já não é máquina, é ator principal de uma récita, ao mesmo tempo lúcida e lúdica. O céu não é mais o firmamento; é palco, cenário de gestos e movimentos que contemplam a geometria euclidiana. Puro balé no espaço. Radiosa aventura. A platéia, em baixo, se dá conta da insustentável leveza do ser...
Finda a récita, a platéia reverencia os três heróicos pilotos. Depois de aplaudi-los, doce enlevo, recolho-me às minhas habituais cogitações sobre a arte de voar.
O homem que voa, mais que épico, é um ser utópico. Quem voa sobreleva. Quem voa busca no céu um lugar de onde Deus possa vê-lo melhor. Quem voa perpassa as sete cores do arco-íris. Quem voa reparte com os anjos a castidade azul do céu. Quem voa é confidente das nuvens. Quem voa troca o beco pela linha do horizonte. Quem voa sente o perfume da rosa-dos-ventos. Quem voa contempla o instante em que o sol se cala. Quem voa é capaz de ouvir e de entender estrelas. Quem voa, quando pousa, está regressando da eternidade.
Só quem voa descobre o tamanho de Deus.
Conta que não fecha
O torcedor anda indócil. Até agora, já na 22 rodada, ninguém sabe o que pode acontecer com seu time. A aritmética da CBF é um caos. Se são 26 equipes, o natural seria que o campeonato tivesse 25 rodadas. Mas não é bem assim. Fizeram tais e tantas alterações que a conta não fecha. Ou melhor, só vai fechar na última semana.
É ou não é de endoidar? O São Paulo lidera o campeonato mas está abaixo do Corinthians em aproveitamento. Por uma razão muito simples: o tricolor paulista está com 20 partidas e o Corinthians, com 18. Em questão, nada menos de seis pontos. Outra confusão: o tricolor carioca, com uma simples vitória, subiu cinco posições na tabela, fruto do desarranjo na programação de jogos. E tem uma situação confortável: é o único que só jogou 17 vezes. Já o Botafogo, sem ter jogado, perdeu cinco posições na tábua de colocações.
Enquanto isso, a cartolagem se diverte no baile sem fim de velhacaria.
Rápidas e rasteiras
A média de gols na última rodada do Brasileiro, três por partida, é uma grata realidade: a retranca já era. Quem entrar em campo, pensando em empatar, perde tempo, perde o jogo. / / / / / O time do Flamengo tem um atacante com especial faro de gol: Liédson. Um artilheiro completo: é diligente, goleia, usando, à perfeição, pé direito e pé esquerdo; mesmo de estatura mediana, cabeceia com notável senso de oportunidade. Quando o time voltar a luzir, certamente, terá em Liedson um ídolo capaz de simbolizar o manto sagrado rubro-negro.


