A ARTE DE VOAR

Sábado de manhã. Entro no carro, sonhando com o programa que me espera na Barra da Tijuca. Faremos mais uma revoada de ultraleve. Vamos passar bem baixinho pela restinga, depois, Itacuruçá, Jaguanum, contemplando à esquerda as praias sem fim da Ilha da Marambaia. É um paraíso atrás do outro.
Certamente, teremos céu de brigadeiro na rota. Quem me diz é o vento Leste que rebate no paredão da Pedra da Gávea, embalando o sereno vôo das asas-delta e dos parapentes.
Esses meninos, dando uma de gaivotas pensei, cá em baixo são a volta por cima que o homem deu num certo capricho da natureza.
Sucede, amigo leitor, que dois terço dos seres vivos são capazes de voar. Pelo menos é o que leio numa revista de vulgarização científica.
E o homem? Infelizmente, ao homem, como é público e notório, foi negado o doce privilégio de voar. Na hora de repartir as sinas, a natureza destinou-o a ficar por aqui, como as vacas, a bater pernas por esse vale de lágrimas.
Muito já pagou o homem pela pena de não ter o dom, por exemplo, da gaivota, em boa hora aqui lembrada pelo invejável estilo de vôo que lhe permite a dócil geometria de suas asas.
Mas, vamos e venhamos: a natureza não foi assim tão madrasta com o homem. Afinal, se não lhe deu asas ao corpo, deu-lhe-as à imaginação. E é por isso que se vê, hoje, o céu repleto de sonhos. Balões que sobem, pára-quedas que descem, asas-delta que planam; jatos, ultraleves, planadores voando pra cima e pra baixo. Ruidosos uns, poéticos outros, vertiginosos alguns, nossos ousados brinquedos vivem dia e noite lá por cima, tirando o sossego dos pássaros e o sono dos anjos-da-guarda. Volta e meia, o sonho despenca e se espatifa cá na terra, sob o olhar no mínimo desdenhoso dos urubus. Eles sabem muito bem o que é ser tragado pela turbina de um jato que invadiu seu espaço aéreo como se o céu fosse terra de ninguém.
Respeito o devaneio do homem, mas não vejo saída: o ser humano jamais voará por seus próprios meios. O mais que ele consegue é sair a passeio levado pelo ronco das máquinas ou pela boa-vontade dos ventos. E isso, positivamente, muito pouco tem a ver coma arte de voar; isso é apenas ser voado, o que deixa o homem numa situação de inferioridade que talvez explique o desprezo com que me olham os urubus quando passo por eles de ultraleve.
Quando menino, eu costumava sobrevoar em sonhos a floresta de Xapuri, montado no pescoço de um regador de jardim. Sei que voar não é da índole dos regadores mas me lembro perfeitamente que o meu tinha asas e voava com o ar gracioso de um albatroz.
Tenho centenas de horas de vôo com meu ultraleve. Encanta-me sentir o perfume dos ventos, a castidade das nuvens, o alento das térmicas. Confesso, porém, que não chega a ser a plena felicidade. Voar como um passarinho é que deve ser mesmo a glória.

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