NA GRANDE ÁREA - Armando Nogueira
Os ossos do ofício
Fim de férias e cá estou, de novo, pronto pra roer os ossos do meu ofício. Velho e batido trabalho sempre cheio de surpresas, de perplexidades, de controvérsias, de paixões pau-puro. Ser cronista esportivo é dar a cara à tapa. Minha volta ao trabalho que o diga: encontro muitos e-mails a me cobrar por tudo que eu disse e que deixei de dizer sobre o papel da seleção no mundial. Um deles quer que eu peça desculpas ao Felipão.
Não sei bem porque devo me considerar em falta com o treinador. Jamais o destratei. Se discordei dele foi no plano superior das idéias. E, por mais merecido que tenha sido o triunfo brasileiro, nem assim deixarei de dizer que o futebol da seleção ficou alguns furos abaixo do seu consagrado padrão. Impôs-se o Brasil graças a iluminações individuais. A equipe ficou devendo no quesito harmonia. Atacava por espasmos. Podia ter sido mais fluente, mais constante, coletivamente. Gostaria de ter visto a seleção fazer o que faziam outras equipes: futebol de aproximação, bola casadinha, troca de passes curtos, em triangulações. O México fez isso. Senegal, também. Turquia, idem, idem. Por que não o fez também o melhor de todos? Como ocorreu contra a Inglaterra, justamente a partir do momento em que ficou sem seu mais brilhante jogador, o Ronaldinho Gaúcho. Ali, houve momentos de refinamento na circulação da bola. Pena que tenha durado tão pouco.
Onde, então, estaria o mérito de Felipão? Sem dúvida, na força mental que sua liderança impôs à rapaziada, dentro e fora de campo. Ele motivou todo mundo, ricos e pobres, notórios e pouco conhecidos, tirando de cada um o máximo de suor, de empenho, de devoção à cruzada de reabilitação do futebol brasileiro. Assim, Felipão contribuiu para que o nosso povo vivesse a plena felicidade de uma bela conquista.
Em matéria de futebol, confesso que estou mal acostumado. Vi, de perto, portentosas seleções. Não só as do meu afeto pessoal, em 50, 58, 70, 82, como algumas equipes de outras plagas, igualmente inesquecíveis: a Hungria de 54, a Holanda de 74, a Alemanha, vice de 66 e, anos depois, campeã de 74.
Utopia? Quem sabe? Ser utópico é querer sempre mais. Hoje, melhor que ontem; amanhã, bem melhor que sempre. Aprendi com meu mestre Otto Lara Resende que o homem precisa crer na utopia. E é assim que eu sou no esporte: desejo, ardentemente, a utopia.
Gosto de ressaca
A Copa dos Campeões, disputada no Norte-Nordeste, paga um preço altíssimo por suceder a Copa do Mundo. Coitada. Dos campos vem como que um hálito de ressaca que a torna chatinha. Os europeus são bem mais sabidos. Finda a Copa, o futebol por lá entrou em recesso. Aliás, mais que recesso, o que há na Europa, no momento, é uma espécie de pausa para avaliação. O circo deles ameaça pegar fogo. Os clubes italianos estão beirando a falência. Os franceses não estão suportando a barra do delírio salarial dos jogadores. A crise é tamanha que os astros do Inter, pressentindo a bancarrota, propõem rever seus ganhos, pra baixo. Uns abrem mão de 10%, outros, até de 30%. Uma situação pra lá de sombria, mas ainda assim, longe do buraco negro em que se transformou o profissionalismo brasileiro, reino da irresponsabilidade. Aqui, não dá mais pé: o afogamento é geral. Ninguém está pagando um tostão a ninguém.
Logo, logo, poderemos ver vingar a moral do volante Vampeta, autor deste primor de cinismo: ''Eles fingem que pagam e nós fingimos que jogamos.''





