Pro bem do sonho




Seul - O futebol é um jogo de conjunto? Sem dúvida. É uma equipe a correr com uma bola compartida entre 11 jogadores. Acontece que o futebol mais laureado do mundo, que é o brasileiro, desmente o preceito. Entra em campo com 11 jogadores, mas, na hora H, quem decide é um só. É um Leônidas, ali, um Garrincha, aqui, um Pelé, acolá, um Zico, um Rivelino, um Rivaldo e um Ronaldo, mais adiante. Ia esquecendo de mencionar justamente o mais brasileiro de todos os craques da nova geração brasileira, que é Ronaldinho Gaúcho. Um artista que joga bola como quem verseja.
O jogo Brasil-Turquia foi bem assim: os turcos tramavam, a bola circulando de pé em pé, tudo bonitinho, como mandam os compêndios. De repente, o Brasil ataca, meio desordenado, a bola rola perto de Rivaldo e só não é gol porque o goleiro Rustu, que é um gigante, desvia a córner.
Hoje, com a Alemanha, não será diferente. De um lado, a escola européia, brandindo régua e compasso; do outro, a intuição que chega bem antes do pensamento. O futebol brasileiro é isso mesmo: centelha pura. Tal como um verso, que vem de um sopro divino, o drible, o passe de curva ou de calcanhar são invenções que a razão desconhece.
Um drible de Ronaldinho Gaúcho é o retrato perfeito do proverbial jeitinho brasileiro, que, hoje, mais que nunca, há de fazer a diferença. Pro bem da fantasia, pro bem do sonho. Amém.
A Amélia coreana
‘‘Ajumma’’ chutou o balde da filosofia. A expressão da linguagem popular coreana define a mulher de meia-idade, dona de casa, cuja vida é inteiramente dedicada ao marido, aos filhos, à família. ‘‘Ajumma’’ seria a nossa Amélia de outrora. A mulher de verdade, que achava bonito não ter o que comer. Pois bem, chega a Copa, a ‘‘Ajumma’’ resolve dar um basta na subordinação patriarcal. Vê todo mundo na rua, pulando, cantando. O marido, os filhos engrossando a festança nas praças. Ah, é assim? ‘‘Ajumma’’ veste uma camisa vermelha e sai por aí, de bandeirinha na mão, celebrando com a multidão a concórdia nacional, simbolizada na seleção coreana.
O futebol subverte a rigidez da moral confucionista. ‘‘Ajumma’’ vai à luta, promovendo uma autêntica revolução cultural na Coréia do Sul.
Bandeirinha: 5 A 1
Por que bandeirinha erra tanto? Esta pergunta levou um grupo de psicólogos a estudar, a fundo, a questão, numa pesquisa que durou quatro anos. O grupo é da Universidade Livre de Amsterdã, da Holanda. A pesquisa usou câmeras, dispostas estrategicamente, pelos dois lados do campo. Usou também árbitros de nível internacional no papel de bandeirinhas. O estudo conclui que o juiz de linha é vítima de ilusão de ótica, provocada por má colocação na hora de acenar a bandeira. Como não acompanha, corretamente, o alinhamento dos jogadores, o bandeirinha acaba tendo uma visão destorcida do que está ocorrendo, naquele breve instante.
Em 200 impedimentos, os bandeirinhas cometeram 40 erros. Quer dizer: em cada cinco bandeiradas, uma está errada. Naturalmente, acaba sobrando pra santa mãe do bandeirinha.
O doutor duvidou...
Ronaldo está recuperado da rótula que estourou duas vezes e que parecia tê-lo condenado a uma prematura aposentadoria. Na recaída, eu também comecei a temer pela sorte do craque. E, hoje, eu sei que estava em boa companhia porque o homem que operou Ronaldinho, duas vezes, o ortopedista francês Gérard Saillant, acaba de confessar a um jornal de Paris: ‘‘Agora que tudo está bem com Ronaldo, devo reconhecer que eu também fiquei cheio de dúvidas, na segunda cirurgia.’’ O moço é, realmente, um prodígio.
Uma dos bastidores da recuperação de Ronaldo que eu ignorava: além de Nilton Petrone, Ronaldo passou pelas mãos ditas mágicas do osteopata francês Phillipe Boixel, que trata, também, de Zidane e do inglês Owen.

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