Na Grande Área - Armando Nogueira
Respeito é bom...
Seul - Escrevo antes da semifinal Brasil-Turquia. Portanto, às cegas. Só sei que a seleção do Brasil já pensava entrar nessa partida com um pé atrás. O técnico Scolari falou, várias vezes, que a Turquia mudou pra melhor ao longo da Copa. Roberto Carlos também opinou, preferindo, na semi, o Senegal.
Afinal, é bom recordar que, na primeira fase, a do mamão-com-açúcar, o Brasil escapou de um empate, com a dita Turquia, graças a uma interpretação estapafúrdia do árbitro coreano que, com a conivência do bandeira, puniu com pênalti uma falta sofrida por Luizão, cinco metros antes da grande área.
A seleção turca vem jogando um futebol que nada assusta mas, indiscutivelmente, consistente, na defesa, e solidário, em todas as linhas. O fundamento principal da equipe turca é um conceito antigo e que sempre funcionou: a triangulação, isto é, o jogador que está com a bola tem sempre em volta dele duas opções de passe curto. É o que o velho Tim chamava jogo casado. Jogo de aproximação.
A defesa turca, sólida, é respaldada na figura do goleiro Rustu Recber. Firmíssimo e sóbrio. O Brasil, por sua vez, chegou onde chegou, usando as armas sempre desconcertantes de suas valiosas individualidades. De repente, deu um estalo coletivo e o Brasil derrotou a Inglaterra, fazendo com 10 em campo (Ronaldinho Gaúcho expulso) o que, até então, não conseguira fazer com 11.
Dizem os turcos que não têm medo do Brasil. Tudo bem, mas que todos tremem, a meu ver, tremem. Afinal, respeito é bom e só faz bem.
Cinco virtudes
Depois de Buda, Confúcio e Tao, só um homem é capaz de fazer a cabeça do povo coreano: Guus Hiddink. Ele é o doutor seráfico, o mensageiro da felicidade. Antes dele, o coreano vivia de cabeça baixa, amargando a tirania secular dos vizinhos, remoendo as dores de sucessivas ditaduras. Há um ano e meio, Guus Hiddink, vindo da Holanda, assumia o comando técnico da seleção de futebol da Coréia. Formou uma equipe, misturando preceitos técnicos do futebol total com elementos místicos da filosofia budista. Cinco virtudes modelam a equipe de Hiddink: velocidade, agilidade, habilidade, tenacidade e humildade.
Os três primeiros fundamentos foram muito bem trabalhados por esse perfeccionista holandês de 56 anos. Os outros dois, ele já encontrou aqui. Tenacidade e humildade são traços da personalidade do povo coreano. O budista aceita o sofrimento como meio pra alcançar o Nirvana, que vem a ser o reino da suma perfeição.
Ao fundo, a imagem já canonizada de Guus Hiddink, hoje, o grande ídolo da Coréia, cujo povo vive intensamente o que já se denominou a Síndrome Hiddink. Um povo em permanente busca de heróis populares. Já existe a máscara de Hiddink, que as pessoas usam dia e noite. O comércio está vendendo cerca de mil bonecos com a figura do técnico da seleção coreana. É o tributo ao cidadão que, depois de um jejum de 48 anos, levou a Coréia a vencer e a fazer história na Copa do mundo.
Rápidas e rasteiras
- Beckenbauer está horrorizado com a seleção alemã neste Mundial. Ele chegou a dizer o seguinte: Pra mim, só se salva o goleiro Oliver Khan. O resto, eu meteria num saco e mandava de volta pra Alemanha. Beckenbauer mora na aldeia e conhece os caboclos.
- Se a Fifa tiver um pingo de lucidez, coisa tão rara nessa casa, o árbitro da final será o italiano Pierluigi Collina, disparado, o melhor do mundo, há alguns anos. Ele apitou o último Inglaterra-Argentina, um jogo cheio de rusgas históricas. E foi impecável. Esta será a última copa do italiano que já tem 42 anos.





