Na Grande Área - Armando Nogueira
Sânscrito e polonês
Seul - A seleção subiu o quarto dos sete degraus da Copa. Mas não foi tão fácil como sugere o placar. A Bélgica perdeu, foi embora, mas deu trabalho. Um tanto por ela mesma, outro tanto porque a equipe brasileira continua desconjuntada. Metade do time fala sânscrito, metade fala polonês. Em conjunto, as partes não se entendem.
Recorro, uma vez mais, à expressão que usei, há dias, dizendo que o Brasil arranja, sempre, uma saída informal pra qualquer problema. É o famoso jeitinho brasileiro que funciona também no futebol. De repente, Rivaldo acerta um chute preciso; de repente, o Ronaldinho Gaúcho dá uma esquiva, abre um clarão; de repente, o outro Ronaldo corta dois gringos e sai mais um gol do Brasil.
A equipe, porém, continua desarrumada. Não tem tido imaginação na hora de criar, em bloco, uma ação ofensiva. É cristalino, como água de fonte, que está sentado no banco o jogador capaz de coordenar a transição da bola entre ataque e defesa. Falo de Ricardinho. Por que confiar a Juninho uma tarefa que nada tem a ver com ele? Jogador de armação não entrega a bola a domicílio como qualquer pombo-correio. Jogador de armação faz a bola circular, segundo aquela máxima de Jorge Valdano: La pelota, hay que tocarla mucho e tenerla poco.
Diz outro provérbio popular que não se mexe em time que está ganhando. Mexe, sim senhor. Ninguém pode comparar a China ou a Turquia com a Inglaterra, nem com a Itália.
A dupla Ronaldo-Rivaldo lembra a dupla Romário-Bebeto, na Copa de 94. Com uma diferença: os dois atacantes de Parreira tinham atrás deles um bloco consistente, formado por quatro jogadores, o que facilitava muito a chegada da bola, fosse em toques rápidos, fosse em bola profunda, de contra-ataque. O futebol era sonolento, europeizado, mas tinha uma cara definida. Tinha uma personalidade, da qual era símbolo o capitão Dunga. A equipe desta Copa não tem fluência. Age por espasmos. Futebol de soluços.
Não podemos esquecer, meus amigos, que nos dois jogos mais difíceis da trajetória brasileira Turquia e Bélgica a arbitragem deu o ar de sua graça a favor do Brasil. Não é nada legal a gente ficar lendo, na unanimidade da imprensa mundial, que o juiz continua aliviando o Brasil, como escreve, em manchete, o sisudo El País, da Espanha.
Bota o Ricardinho, Felipão!
Copa-e-cozinha
- Leitores andam me criticando, via e-mail, dizendo que sou muito reverente ao futebol argentino. Sou, sim, e com muito prazer. Alegam que a imprensa argentina é hostil e desrespeitosa, quando fala do futebol brasileiro. A animosidade entre brasileiros e argentinos, principalmente no futebol, perde-se na poeira dos tempos. A velha bronca sempre foi engrossada pela histeria de jornalistas apaixonados, tanto nossos como deles. Não ligo pra essas desavenças, por sinal, descabidas. Não há pressão que me faça embarcar nessa idiossincrasia. Gosto do futebol argentino, consagrado na genialidade de Maradona, como gosto da música argentina, simbolizada na genialidade de Piazzola.
- Há quem considere surpresa o Japão ter chegado às oitavas e a Coréia, mais surpresa ainda, ter passado às quartas-de-final, quando se previa que ambos cairiam do galho, logo na primeira fase. Não é bem assim que fala a história. Desde que a Copa é Copa, jamais o país anfitrião deixou de chegar à segunda fase. Pra citar só anfitrião de porte modesto, lembro que o México, o Chile, os Estados Unidos, todos foram mais longe do que se imaginava. A Suécia, anfitriã de 58, chegou até a final. Estão lembrados? Brasil, 5 a 2.





