OS DOIS BRASIS
Seul - A seleção brasileira são dois Brasis: um, do meio pra frente, que resolve; outro, do meio pra trás, que complica. Positivamente, essa desafinação não vai acabar bem. A linha de três zagueiros deixa crateras imensas, por onde entra, sem pedir licença, qualquer atacante rival. Foi assim, agora, contra a Costa Rica e assim será, daqui pra frente, seja contra quem for.
Eu me lembro de uma conversa que tive, há muitos anos, com o técnico russo (então, soviético) chamado Katchalin. Ele, fã ardoroso do futebol brasileiro, me dizia: ‘‘Pra ficar perfeito, o Brasil só precisa ser bem organizado lá trás. Do meio pra diante, não precisa se preocupar. Os atacantes brasileiros são imarcáveis’’. Ou seja, futebol-científico na defesa, futebol-arte no ataque.
No jogo com a Costa Rica, o ataque fez cinco e podia ter feito o dobro. Em compensação, a defesa levou dois, mas devia ter tomado cinco. Se chegar às quartas-de-final, assim, capenga, pode escrever, caro leitor: O Brasil vai fazer companhia à França, à Argentina, a Portugal na freguesia das esperanças mortas.
No mundial de 86, meu querido Jô Soares alfinetava Telê com um bordão absolutamente pertinente: ‘‘Bota ponta, Telê!’’ É bem o caso de atazanar a paciência do Felipão: ‘‘Bota mais um zagueiro nessa peneira, Felipão!’’
PAPELÃO NO MUNDIAL
Que papelão fizeram as seleções da Itália e do México! Sabendo que já estavam classificadas, reduziram os cinco minutos finais de seu jogo a uma deplorável pantomima. Cada qual no seu meio-campo. O México com a bola, a trocar passes inócuos, jogando um futebol bizantino, pra não dizer grotesco, desrespeitoso.
No mundial de 82, na Espanha, Alemanha e Áustria cometeram o mesmo embuste. Que fez a Fifa? Como sempre, omitiu-se.
Agora, o árbitro brasileiro Carlos Simon, pelo menos, teve o pudor de se antecipar ao cronômetro, apitando o encerramento, um minuto antes. Ainda assim, acho que os dois times mereciam um cartão amarelo coletivo que punisse a afronta ao espírito esportivo estampado na bandeira do Fair-Play, aquele estandarte que entra em campo, como um pálio aberto, à frente das duas seleções.
ESTÁ FALTANDO UM...
A eliminação da Argentina empobrece, ainda mais, uma Copa que já vinha escassa de brilho. Entendo a paixão que celebra a queda de um grande rival. Mas, o futebol não construiu sua nobreza à custa do fervor das arquibancadas. O grito da multidão é e será, sempre, a moldura de uma obra imensa, forjada na pureza de uma bola, tocada e retocada por pés mágicos. Ontem, como os pés imortais de Zizinho e Pedernera; hoje, como os pés auspiciosos de Ronaldinho Gaúcho e de Pablo Aimar.
A Argentina reparte com o Brasil o privilégio de jogar o mais bonito futebol do mundo. Esse jogo apaixonante foi inventado pelos ingleses, mas, ninguém negará que brasileiros e argentinos é que elevaram o futebol às culminâncias de uma arte bem próxima da dança, na riqueza de gestos, na vertigem de tantos corpos em movimento, nos instantes de crispação. Por isso, em boa hora, o futebol sul-americano acabaria batizado de futebol-arte. Que me perdoem os pragmáticos, mas ninguém resiste ao fascínio de uma bola sem arestas chutada com pés de pluma.
Minha iniciação no futebol é antiga. No fim dos anos 40, eu via, deslumbrado, os confrontos da Copa Roca, entre brasileiros e argentinos. Eram partidas monumentais, de técnica requintada: nós, com o feitiço do drible e da finta, eles, com fulgor do passe curto, incisivo, preciso: ‘‘toco y me voy’’. Havia catimba, sim, havia destemperos, mas o que ficava de cada partida era o esplendor.
A Copa do Mundo fica mais triste sem o talento argentino.
ABUSO DA RETRANCA
Pergunta de um leitor: ‘‘Armando, qual é, até agora, o pior treinador do mundial?’’ Respondo, sem hesitação: Bielsa, da Argentina. Senão é o pior, certamente, será o mais desconcertante. O homem fez uma mexida simplesmente estapafúrdia, trocando cinco jogadores, pra partida com a Suécia. Desfigurou a equipe. Por nada. Não havia problemas físicos, não havia o drama de cartões a zerar. Resultado: insegurança dentro do campo, insegurança no banco de reservas. Bielsa é conhecido pelos argentinos como ‘‘El Loco’’. Provou que é.

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