Na Grande Área - Armando Nogueira
Futebol que é bom...
Seul - Jogo empolgante neste Mundial até que não tem faltado. Ninguém pode se queixar. Muita luta, muito empenho, transbordamento de energia, corpo-a-corpo de rara crueza. Futebol de alto nível, porém, não se tem visto por aqui. Um jogo como Argentina-Inglaterra vai pro rol das grandes exceções. Há jogos em que, francamente, me dá ímpetos de sair gritando que o espírito humano não suporta tanta mediocridade. O figurino das equipes é muito bem talhado. Os uniformes são vistosos, mas a bola jogada é sem graça.
Esse é o pior Mundial das últimas três décadas, disse César Menotti, ex-técnico argentino, campeão mundial em 1978, em seu comentário para a televisão mexicana. Não concordo muito com ele porque o Mundial de 94, como o de 90, foi repleto de partidas insossas. Mas dou razão a quem reclama que o aumento de equipes, de 16 pra 24 e de 24 pra 32, acabou, progressivamente, a comprometer o nível da Copa.
Pra agravar ainda mais o declínio, a bola da Copa, a tal Fevernova, é bonitinha mas ordinária. É leve demais. Pode até estar dentro dos padrões de peso da Fifa, mas, a tecnologia nos deu um objeto desconcertante que sobe além da conta em qualquer chute à entrada da área. Dá a impressão de que os jogadores são uns pernas-de-pau sem noção de medida no ato de chutar. Num passe de 30, 40 metros, a bola acelera de tal modo que torna grotesco um lançamento de craques como Beckham, Figo, Totti, Rivaldo, Veron.
Admito que os jogadores acabam por dominar as manhas da bola, mas, até lá, a Copa já terá acabado.
Arbitragem em questão
Nessa Copa os juízes estão passando da conta, com a nova doutrina de deixar o jogo correr. Fazem vista grossa a entrechoques que, antes, não eram tolerados. Resultado: o corpo-a-corpo está virando colisão, atropelamento. O jogo, em dados momentos, oferece cenas típicas do rúgbi. Chega a ser desagradável aos olhos a contundência de certas disputas.
Quanto mais avança a Copa, mais pesado fica o jogo. Vira guerra. Aliás, está me lembrando a célebre frase de George Orwell, segundo a qual, o futebol só é diferente da guerra num ponto: não tem execuções. Por enquanto... digo eu.
A alma canta
Quando é jogo da Coréia, a Copa do Mundo, mais que nunca, é uma festa. O povo enche o estádio, o povo inunda a cidade. É a colossal vermelhidão que aflora da alma do povo coreano.
O futebol está revelando ao mundo que a Coréia é uma alma que canta e que canta há milênios. Todas as formas poéticas desse povo são de origem musical. Gente admirável essa, cujo coração oscila entre a contemplação e o contentamento.
A Coréia é um canto. Um encanto.
Copa-e-cozinha
- A exposição Copa do Mundo através da Arte reúne 70 obras de artistas de 19 países, na Galeria Hyundai, em Seul. Entre os artistas, Jeff Koons, considerado a Madona da arte pop americana, e o coreano Paik Naim-June, famoso por suas instalações com monitores de televisão.
- O nome da bola do Mundial, Fevernova, vem da idéia de que a febre do futebol tomará conta da Ásia definitivamente. A meu ver, com ou sem ela, o futebol já é uma torrente em todos os países asiáticos.
- Vocês devem ter reparado que há muitas cadeiras vazias nos estádios. O comitê organizador resolveu tomar uma providência. Preocupados com a televisão, os cartolas decidiram encher os estádios com voluntários. É a introdução da claque no futebol. São estudantes, burocratas e empregados de organizações civis. A perda com os ingressos encalhados chega a 770 mil dólares por partida.





