Seul - Se eu lhe disser, caro leitor, que esta é a Copa das seleções mutiladas, não estarei cometendo um exagero. Quem não deixou em casa um jogador, pelo menos um, no estaleiro, com certeza aqui chegou, trazendo alguém avariado. Sem contar os que estão sendo devolvidos por precariedade física. É voz corrente que os atletas, estropiados, ainda terão que jogar uma Copa, nem bem saíram de campeonatos e de eliminatórias intermináveis. Tempos insanos, dos calendários impiedosos que sugam até a última gota o suor dos atletas. Ainda não chegamos à metade do ano e quem jogou menos, aqui na Europa, já jogou 50 partidas. Parece até o Brasil.
O grito de alerta vem, justamente, do futebol mais implacável do mundo, que é o italiano. O presidente do Sindicato dos Jogadores Italianos, Sergio Campana, declarava, há dias, à revista ‘‘Courrier International’’, que, ‘‘hoje, o esporte de competição, principalmente o futebol, não é mais sinônimo de saúde e sim de afronta aos princípios mais elementares da condição humana.’’
O libelo italiano não livra a cara de ninguém. Pega primeiro a cartolagem. Depois pega em cheio os técnicos e preparadores físicos. O doutor Claudio Bartolini, ex-médico do Parma e ex-diretor do Departamento de Medicina Esportiva do Hospital San Giacomo, de Roma, denuncia: ‘‘A preparação física é dada por maníacos da performance’’. E cita, o exemplo de Ronaldinho, do Inter: ‘‘Se ele treinasse menos e com a devida moderação, o tendão dele não teria rompido como rompeu. O tendão da rótula não arrebenta, jamais, por um traumatismo pontual e sim porque ele é massacrado por jornadas desumanas de treinamento.’’
Não é preciso perguntar por que será então que os jogadores se sujeitam à tamanha agressão a seu corpo, a seu sistema neuro-psíquico. Todo mundo sabe que o silêncio deles é comprado a peso de ouro. Por isso, craques como Rivaldo aceitam o sacrifício de jogar com o joelho infiltrado de xilocaina; por isso, há os que recorrem a suplementos alimentares suspeitos que afetam seriamente a saúde; por isso, a Inglaterra, a Itália, a França, os africanos, a Argentina, chegam à Copa desfalcadas de jogadores importantes.
Brasil, no sereno
Um jovem coreano, intérprete da equipe do Sportv, me pergunta, gentilmente, quem ganha a Copa do Mundo? Do alto de minha prosopopéia, respondo que assim como não se pode prever o ‘‘lanterna’’, muito menos alguém poderá predizer o campeão. O futebol, tal qual o coração, tem razões que a própria razão desconhece... Quando muito, pode-se especular, elegendo quatro ou cinco seleções, digamos, mais próximas do título. Na cabeça, eu indicaria Argentina, França e Brasil. O Brasil entra no rol dos plausíveis por minha conta e risco. Os europeus, de um modo geral, não pensam assim. Rendem-se à lógica dos números. Louvam-se no retrospecto sombrio das eliminatórias. Acham que o Brasil chega à Copa sem padrão de jogo definido. E daí? Desde quando foi diferente? O que distingue o futebol brasileiro dos outros é o padrão de jogador e não o padrão de jogo.
De fato, não tem padrão, mas, de repente, pode ter. É só dar o estalo. Por estalo, entenda-se a centelha do talento individual.
COPA E COZINHA
- O técnico da seleção da Coréia do Sul é o holandês Guus Hiddink. Qual é a dele? O homem cismou de fazer a equipe jogar no célebre estilo do ‘futebol total’ que deu fama à seleção holandesa, no mundial de 74. Um modelo altamente sofisticado num futebol primitivo só pode dar no que está dando: em vez de ‘futebol total’, é zorra total...
- Alguém perguntou ao jogador Totti, da seleção italiana, qual a profissão que ele escolheria numa outra encarnação: ‘‘Ah, não tenho a mínima dúvida de que eu preferia voltar ao mundo como mulher de jogador de futebol.’’
Armando Nogueira

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