Paris - A caminho da Coréia do Sul, meu posto de trabalho, na Copa do Mundo, dou uma paradinha de uma semana em Paris. Se a seleção campeã do mundo não valesse uma pausa, certamente, a cidade bem que vale. E como vale! Pelo azul profundo que celebra a primavera, parisiense, pela brisa da noite que trama, em silêncio, o amor entre às flores – enfim, pra pressentir os fluídos de Guga que chega a Roland Garros, justamente, na semana em que estou me mandando pro fim do mundo, em nome de outra aventura do esporte. Ossos de um ofício de que já me ocupava em priscas eras.
Este ano, Paris transpira euforia. A seleção francesa está prestes a defender o título de campeã do mundo. Dela será a honra de inaugurar o Mundial-2002, na sede de Seul, dia 31. Nos jornais, nas revistas, nas esquinas e na tevê, uma só voz ressoa, em tom do mais ardente nacionalismo: ‘‘Les Bleus’’ (Os Azuis), alusão à cor da camisa da seleção nacional. Há quatro anos a França vem venerando como símbolo pátrio de triunfo a camisa campeã mundial de 98.
Sou da terra que já viveu quatro vezes a profunda emoção de ganhar a Copa do Mundo. Sei muito bem o que é construir uma legenda, embora saiba, também, o que é vê-la destroçada pelo pecado mortal da avidez, da falta de escrúpulos, da mercantilização. A camisa canarinho do Brasil é, hoje, um mero objeto de mercancia nas mãos despudoradas da cartolagem da CBF.
O mito dos ‘‘Bleus’’ tem, pros franceses, o mesmo valor que têm para os italianos a mística da ‘‘Azzurra’’. Quem pensa que camisa não ganha jogo, infelizmente, pouco sabe dos sortilégios do futebol. A camisa é a aura de uma equipe. É a alma que aflora, pra dar mais ânimo ao corpo.
Os franceses estão confiantes, não apenas na força espiritual, mas também, no poderio técnico, tático, físico e mental da equipe. Seu favoritismo é inquestionável, em toda a Europa. Há quem assegure que a seleção de 2002 é superior à de 98. Por ser a mesma base da seleção campeã, com o dobro de experiência. Por estar remoçada pelo frescor da nova geração. Não há no continente europeu exemplo melhor de renovação do que a França, que colhe, hoje, os frutos de um programa iniciado no fim dos anos 70. A Federação Nacional cuida, detidamente, de todas as categorias: dos infantis aos adultos, passando pelos ‘‘subs’’ 17, 20, 23.
Numa entrevista ao ‘‘France Foot-ball’’, o técnico Aimée Jacquet, da seleção de 98, hoje diretor-técnico da Federação, afirma que ‘‘a França representa, no momento, uma verdadeira máquina técnica, altamente poderosa, sobretudo, no aspecto ofensivo’’. Jacquet acredita que o plano lançado há mais de 20 anos continuará a dar alegrias nos próximos 15 anos.
A França estréia no mundial contra a seleção do Senegal. O rival não chega a assustar, mas os ‘‘Bleus’’ sabem muito bem que o futebol, em si, é um tanto irracional. Daí, que, tal como caldo de galinha, uma dose de cautela não faz mal a ninguém. A França é frequentadora assídua do mundial. Compareceu a 10 Copas, tendo conquistado a última, derrotando o Brasil por 3 a 0. Já o Senegal é marinheiro de primeira viagem. Tem 120 mil jogadores federados contra dois milhões e 200 mil na França. É sabido que, pelo menos no futebol, não se conhece o gigante pelo tamanho do PIB, mas chega a constranger constatar que a França alcança a renda anual de US$ 23 mil ‘per capita’, enquanto o Senegal chega a pouco mais de US$ 1 mil.

Copa e cozinha

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