Na Grande Área - Armando Nogueira
Um time, sim senhor!
Enfim, posso dizer alguma coisa sobre o time do Brasiliense: é bom de bola, mesmo. Tem um toque de bola que vejo em poucos times do momento. É bem organizado, em todas as linhas. Física e mentalmente, está no ponto ideal de competição. Troca passes com rapidez e precisão. Parece time argentino, dos bons. Em matéria de circulação de bola, em velocidade, ninguém é melhor que argentino. O time do Brasiliense faz um toco y me voy que é uma beleza.
Não deu vida fácil ao Corinthians, no Morumbi, e certamente, não lhe dará trégua também lá em Taguatinga. O time paulista jogará, certamente, armado pro contra-ataque. É o seu trunfo, à luz do regulamento. Na certeza, porém, de que o Brasiliense não lhe dará sopa. O time se defende tão bem quanto ataca e contra-ataca. É competitivo, joga lealmente. No Morumbi, o Brasiliense foi a estrela do espetáculo. Nesse aspecto, só lhe faço um reparo: o amarelo do uniforme, puxado a ouro velho, esmaece o fulgor da equipe. O futebol da rapaziada do Brasiliense pede um amarelo mais ardente. Eis uma questão pro pintor Rubens Gerchman, que além de entender de futebol, domina, como poucos, a psicologia das cores.
O Corinthians venceu a partida, mas, em momento algum, empolgou. Como esperava a crítica e a torcida. O jogo foi lá e cá. Chegou, mesmo, o Corinthians a ser favorecido, quando o árbitro puniu como mera simulação um lance em que um brasiliense foi empurrado pelas costas, em plena área corintHiana. Uma falha injustificável porque Simon estava em lugar próximo do lance. Igualmente privilegiada era a posição do juiz-de-linha que devia ter acenado a bandeira no instante em que Gil atropelou o zagueiro brasiliense, cometendo falta flagrante. Dali, surgiria o gol da imerecida vitória corinthiana.
Enfim, o Brasiliense não me pareceu um desses times bissextos que, de vez em quando, surpreendem. O time existe, não é uma ficção.
O cartaz do cartão
A imprensa esportiva, em peso, desancou o critério dos cartões como quesito de classificação no Rio-São Paulo. Raras, raríssimas vozes, deram uma colher à disciplina. Pros colegas, parece que só têm sentido os fatores de ordem técnica. Acham fair-play mera frescura. Futebol é pra macho e temos conversado. Ora, não é bem assim. De fato, o critério deve priorizar sempre a melhor campanha, mas uma coisa é irrefutável: a idéia de dar mais peso aos cartões melhorou o nível técnico do jogo. A violência caiu drasticamente. O jogo São Paulo-Corinthians, domingo passado, registrou a cifra aceitável de apenas trinta e cinco faltas. Foi igualmente notável o aumento no tempo de bola em jogo: 64 minutos, quatro mais do que recomenda a FIFA. No Corinthians e São Caetano, dias antes, houve 29 faltas e 69 minutos de bola corrida. Melhor, impossível. A que se devem dados tão expressivos? É claro que ao quesito ético.
A Copa Sul-Minas, com o mesmo prestígio do Rio-São Paulo, como é sabido, não adotou o critério de cartões como quesito primordial de classificação. Pois vejam a comparação: nas partidas semifinais e na primeira final, a média de faltas no Rio-São Paulo foi de: 35,6 por partida; na Sul-Minas, são 59 faltas, em média, por partida. Vinte e quatro a mais! Bola em jogo: no Rio-São Paulo: 61 minutos; na Sul-Minas: 52 minutos, ou seja, nove minutos menos de futebol que no Rio-São Paulo.
Conclusão: não é justo continuar ignorando a disciplina, a ética, o fair play como elementos essenciais ao conceito do futebol como esporte e como espetáculo decente.
Tenho recebido espinafrações de leitores, censurando minha adesão (parcial, mas eloquente) ao critério dos cartões disciplinares. Um cidadão mais ácido pergunta se não me sinto mal, vendo a maioria esmagadora da crônica de um lado e eu, falando sozinho, do outro. Pois olha, amigo leitor, o que muito me consola é o sábio aforisma de T.S. Elliot: Num mundo de fugitivos, quem caminha em sentido contrário está fugindo...





