Seleção, obra de autor

A seleção titular do Brasil já pintou na coletiva do técnico Scolari. Será: no gol, Marcos; na zaga, Lúcio, Roque Júnior e Anderson Polga; nas laterais, Cafu e Roberto Carlos; na meia-cancha, Emerson e Vampeta; na meia de armação, Ronaldinho Gaúcho; na finalização, Rivaldo e Ronaldo.
O plano tático é temerário. O esquema de três zagueiros ainda não emplacou no futebol brasileiro. Saber que o treinador escolheu o formato só porque os dois laterais não defendem convenientemente não deixa de ser preocupante. Seria mais fácil descartar os dois laterais. Pelo pouco que sempre jogaram na seleção, o risco seria bem menor.
Os três goleiros são muito bons, sendo Rogério Ceni o mais completo dos três. Joga bem com as mãos e com os pés, como exige o futebol de hoje. Mas, está na cara que o preferido do técnico é Marcos. Depois dele, é Dida. O meu é o segundo reserva. Azar o meu.
Dos quatro zagueiros chamados, o melhor ainda é Edmilson. Na montagem de três beques, é o que tem mais bola de líbero pra sair jogando. É reserva. Azar da defesa.
No bloco do meio, pelo que ficou insinuado na coletiva do técnico, Vampeta deve entrar no lugar de Gilberto Silva, graças a um atributo que o jovem atleticano ainda não tem e que, segundo Felipão, sobra no corintiano: experiência internacional. É bom pra seleção? Não creio: bom, mesmo, seria que Gilberto Silva (excelente na marcação e no apoio) ficasse no time e Emerson, no banco. Ainda por ali, na armação de jogadas, a equipe vai capengar. Falta um canhoto. Pena que o técnico tenha esquecido o corintiano Ricardinho.
No meio, a experiência contou pra Vampeta. Na frente, não contou pra Romário. O mais tarimbado de todos os atacantes brasileiros não só não foi chamado como até acabou tratado como um réprobo. Aliás, houve um mal-entendido na reprodução de meu pensamento, ontem, no Jornal do Brasil. Não devo ter sido devidamente claro quando falei da ausência de Romário. Ficou a idéia de que não valia mais a pena criticar Scolari. Pelo contrário.
Acho mesmo um despropósito o que tenho lido e ouvido de ex-jogadores travestidos de jornalistas e até mesmo de jornalistas, que, agora, não se deve mais discordar do técnico. A palavra de ordem patriótica, é torcer pela seleção. Brasil! Brasil! Brasil!
Negativo, meus amigos. Gostaria muito de ver o Brasil conquistar o mundial. Nem por isso, porém, deixarei de ser o que sempre fui, em 50 anos de carreira: o mais isento, o mais independente possível na crítica à trajetória da seleção. Sobretudo, ao trabalho de Scolari. Afinal, no regime intoleravelmente autocrático de treinador, adotado pela CBF, a seleção não é um bem público. A Seleção tem um dono. A Seleção é obra de autor e, como tal, quem por ela responde merece marcação cerrada.

Cadê o Brasil?

Edson Nascimbeni, bom amigo que mora na Inglaterra, me conta que, outro dia, em Londres, foi a uma coletiva do técnico Eriksson, da seleção inglesa. Eram 20 correspondentes de jornais europeus e asiáticos. Em 45 minutos de perguntas e respostas, sobre Copa e sobre os principais concorrentes, não se falou uma única vez no Brasil. Era como se a seleção estivesse fora da Copa. Meu amigo, um tanto decepcionado, pergunta, se isto não é uma prova de desprestígio do futebol brasileiro. Sem dúvida que é, mas não deixa de ser, também, uma temeridade dos gringos. Ignorar o futebol brasileiro, em qualquer circunstância, pode custar caro. De saída, é um bom pretexto pra incendiar os brios da família Scolari.

Sexo dá jogo

Jejum sexual na seleção, durante um mês. Muito bem. Só pode ser papo de jornalista sem assunto. Não concebo essa bobagem do código de conduta da equipe. Não há um só médico, seja do esporte ou não, que ainda atribua ao ato sexual equilibrado o mínimo dano ao rendimento do atleta. É notório que o mais alto consumo de camisinha, per capita, ocorre durante os Jogos Olímpicos, justamente, quando os atletas namoram de noite e batem recordes de dia, em todas as provas. O ex-jogador Casagrande, há muitos anos, já liquidou a questão, com este testemunho lapidar: ‘‘Sexo não atrapalha, nem antes, nem depois do jogo; só durante...’’
Armando Nogueira

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