Na Grande Área - Armando Nogueira
Rio-São Paulo, Sul-Minas. Ecos das semifinais: 1) O time do Grêmio perde as estribeiras e o próprio jogo, numa tarde funesta, no Olímpico. Terá esquecido que o adversário era o atual campeão brasileiro? O Atlético Paranaense justificou, como nunca, o temível apelido de Furacão: foi simplesmente devastador na impiedosa goleada de 5 a 1.
2) São Paulo e Palmeiras empatam e o placar deve ser repartido entre os goleiros Marcos e Rogério Ceni, ambos insuperáveis. Some-se aos dois a firmeza de Dida e, então, poderemos dizer que jamais as traves da Seleção estiveram tão bem guardadas como agora. Pode não ser tudo, mas certamente é muita coisa numa Copa do Mundo. Felipão pode, perfeitamente, reunir os três, no vestiário, jogar pro ar a camisa principal e gritar: É de quem pegar!
3) As semifinais do Rio-São Paulo ganharam mais paixão, com o novo peso atribuído aos cartões. Cada amarelo que o árbitro empunhava era festa e tormento na arquibancada. A medida chega em boa hora. Nunca o futebol brasileiro se ressentiu tanto do antijogo. Somos o país recordista mundial de faltas (média de 50 por partida, contra 25, na Europa). Tem gente achando injustificável que a disciplina figure no critério de classificação. Eu, por mim, gosto tanto da idéia que até bato palmas pra cartolagem. Antes de mais nada, a conta dos cartões não é prioridade um, nem dois, nem três. Figuram, pela ordem, três quesitos técnicos, a saber: mais vitórias, melhor saldo de gols e gols pró. Futebol também é ética.
4) Se os dois goleiros foram o realce do jogo no Morumbi, no Mineirão, a coisa não foi nada diferente. Jeferson e Milagres fecharam o gol. Aliás, tenho exaltado, seguidamente, a espantosa evolução técnica do goleiro brasileiro, nos últimos tempos. Primeiro, por respeito à posição mais discriminada de um time, no mundo inteiro. Segundo, porque a classe merece uma valorização profissional que o Brasil insiste em lhe negar.
5) Depois do jogo Palmeiras x São Paulo, perguntei a Rivelino qual dos dois times lhe dá mais prazer de ver jogar. Riva respondeu, no ato: o time do São Paulo. Concordei com ele. O ataque do São Paulo toca a bola com mais esmero, seguindo a tônica da dupla França-Kaká. Até mais por Kaká que por França. A bola de ambos é igualmente sem arestas, mas a de Kaká, até pela função que exerce, é mais insinuante.
6) O time do Palmeiras é bem a prova de que Vanderlei Luxemburgo é, hoje, um treinador mais preocupado com a eficácia do que com a plasticidade. Jogar bonito e com proveito parece já não ser a patente de Luxemburgo. Antes, ele jamais montaria um plano apoiado na bola centrada de Arce pra dois pesos-pesados como Cristian e Itamar. É verdade que Valdecir, Magrão e Alex já formam uma trinca de armação, ao mesmo tempo, consistente e constante. O time do Palmeiras, hoje, nas mãos de Luxemburgo, tem sido muito competitivo: não enche os olhos, mas dá o que falar.
7) A impressão que se tem é que Luxemburgo resolveu embarcar na canoa de Carlos Alberto Parreira, em cujas mãos o time do Corinthians parece ter reencontrado o seu velho estilo guerreiro, associado ao rigor tático que sempre foi a marca registrada do treinador. Time de Parreira não brinca em serviço. Ninguém floreia jogada. Time de Parreira é muito bem trabalhado física, técnica e mentalmente. Nada, porém, o afasta do inflexível conceito de que futebol pode ser arte, mas ele prefere que seja ciência, mesmo.
8) Tanto no Rio-São Paulo quanto na Sul-Minas, o que marcou a primeira rodada das semifinais foi a intensidade da disputa. Quanto suor, quanto fervor! Fora o time do São Paulo, que sempre procura requintar mais o jogo, os demais times fincaram pé no combate incessante, na luta implacável. Infelizmente, houve jogadas violentas, algumas, demais, principalmente, nos dois jogos da Sul-Minas. No Olímpico, Fábio Baiano apelou feio. Se ele tiver visto, de noite, na televisão, o pavor que foi a sua entrada no jogador Fabiano, no mínimo, deve ter ido dormir morto de vergonha. Remorso é o mínimo que se espera de um atleta profissional que perdeu a esportiva. A mesma observação se aplica, integralmente, ao cruzeirense Cris. Que diabo é aquilo? Por um triz, ele não quebra em dois pedaços o volante Gilberto Silva, do Atlético Mineiro e da Seleção nacional. Mais que nunca: Cris, cruz, credo!
É isso aí.





