Na Grande Área - Armando Nogueira
Ronaldinho Gaúcho é o seguinte. Em Portugal, a seleção foi ele. Em tudo que de bom se viu no (in)amistoso de Lisboa, havia o dedo de Ronaldinho Gaúcho. Em muitos anos, eu não via na seleção um jogador, assim, tão brasileiro: irresistível no drible, clarividente no passe. Não há adversário que resista a um jogador que vive uma noite esplendorosa. Em dois anos, Ronaldinho Gaúcho amadureceu dez.
Aquele garoto franzino do Grêmio virou um atleta de massa física, a meu ver, incomum, nas pernas de alguém de seu porte. A musculatura das coxas, exuberante, lhe dá uma explosão que lembra o outro Ronaldinho, cinco anos atrás. A foto de jornal, mostrando as pernas dele em pleno esforço, durante o jogo, é uma aula de opulência física. Os quadríceps do rapaz são simplesmente cavalares, com perdão pela tosca comparação que me ocorre ao tentar explicar o poder de arranque de Ronaldinho Gaúcho quando desata o primeiro drible. Não menos notável é o equilíbrio do corpo na corrida, veloz, sempre pontuada de fintas súbitas e de falsas hesitações.
E quando a gente pensa que Ronaldinho Gaúcho vai continuar seu caminho imprevisível, coisa que acontece com todos os intuitivos (vide Denílson), de repente, ele se torna racionalíssimo e dá um passe de quase gol, como o que resultou no pênalti em Edílson. Foi isso que me impressionou, no jogo com Portugal: ele alternava instinto e razão, medula e cérebro. No drible, a magia da invenção; no passe, o dom da descoberta.
Ronaldinho Gaúcho encheu de graça e alegria a noite de Lisboa: na vertigem do corpo projetado, a bola sentida e não pensada, a centelha da inteligência muscular, a magia de fazer da bola o que ela sempre foi e nunca deixará de ser: um brinquedo.
OS PASSOS DA SELEÇÃO
Se Ronaldinho Gaúcho foi o jogo, então, o que dizer da seleção? Sejamos serenos, amigos. Pé no chão. A equipe ainda tem muito que gramar até que nos devolva, de todo, a confiança e o otimismo de outros carnavais. Mesmo que Ronaldinho, o próprio, esteja ressurgindo; mesmo que Rivaldo tenha tido alguns lampejos; mesmo que Gilberto Silva já faça, com talento e coração, o que César Sampaio fazia em 98, com muito empenho e pouco engenho, a equipe me parece ainda longe de estar no ponto. Há de estar, espero. Vejo, ainda, indecisões e desencontros no bloco defensivo, embora Lúcio e Polga tenham me deixado contente, pela técnica individual. Os dois laterais, porém, titulares indiscutíveis, estão em débito, com seu futebol e com sua fama. Roberto Carlos ataca muito menos do que pode e Cafu, por sua vez, muito mais do que sabe.
Outro ponto que considero crítico na seleção é o estilo bate-estaca de Emerson. Sei bem que toda equipe deve ter um carregador de piano, mas o nosso capitão passa dos limites, em qualquer disputa, em qualquer lugar do campo. Chega a ser temerário. Ele não desarma, ele atropela o adversário. Confunde corpo-a-corpo com colisão. Estranho é que no Roma, Emerson é mais comedido. Na seleção, infelizmente, ele entra na disputa com a sutileza dos tanques de guerra. Se jogar assim, na Copa, é expulsão certa.
Enfim, não embarco na canoa do otimismo delirante, mas prevejo dias mais promissores no caminho da seleção. Sobretudo, por ver que Ronaldinho recupera a forma atlética, a olhos vistos; por ver que o outro Ronaldinho vai se impondo como o novo prodígio do futebol brasileiro; por pressentir que Rivaldo, jogando livre, grande solista que é, poderá reencontrar sua vocação ofensiva.
Assim, dá até pra suportar o Roque Júnior, herdeiro universal de outro Júnior, o Baiano, cujos destemperos na zaga de 98 é melhor esquecer.





