Na Grande Área - Armando Nogueira
Tenho dito mil vezes e mil vezes ainda hei de repetir que a Seleção Brasileira não é do povo; é um bem particular, cujo proprietário dele faz o que lhe der na veneta. Como não entende nada de futebol, o senhorio passa a bola a um preposto. No momento, o preposto de plantão se chama Felipão. O traço principal do preposto é a prepotência. Tudo depende dele, que passa a ser a encarnação do poder.
Felipão passou dias, meses, anos, quase, infernizando a nossa paciência com o Cris. Era Cris pra lá, Cris pra cá. A gente reclamava, esbravejava. Nada! A Seleção entrava em campo e lá estava, de novo, o Cris, chutando bolas obtusas pra todos os lados. Não havia outro jeito, senão jogar a toalha. Jogamos. O jeito, era, suportar a cruz de Cris. Credo! Aí, que faz o preposto? Só pra tirar um sarro com a galera, ele despacha o Cris, sem sequer lhe dar uma palavra de gratidão pelos danos que andou causando à bola da Seleção.
Outro dia, publiquei uma pesquisa nacional que o Ibope fez, especialmente, pra esta coluna. Sou um velho chapa do Montenegro. Pedi, ele me atendeu. O resultado, todos se recordam, dá 71 por cento de votos a favor da convocação de Romário. A mesma sondagem revela um baita descontentamento com a atuação do Felipão. É claro que o preposto ignorou a opinião popular a seu respeito. Quem é o povão pra se meter a dar palpite numa coisa que não lhe diz respeito? Felipão só ouve o próprio espelho em torno do qual ressoa o coro dos acólitos, dizendo amem a tudo que ele diz, vê, pensa e fala.
Romário, França, Dodô, ora amigos, são todos uns engana-trouxas. Fazer gol no Arimatéia, qualquer um faz. Com esse gênero de troça Felipão acaba escarnecendo de jogadores que merecem o respeito de todos. Será que a história vai tratar assim, de modo tão sarcástico um jogador da estirpe de Romário? Antes do mundial de 94, quando a Seleção estava realmente a perigo, Parreira e Zagallo pediram arrego a Romário e foi o que se viu, naquele célebre jogo com o Uruguai, no Maracanã.
No meu caso particular, eu já não vejo o Romário como a salvação do Brasil. O tempo consumiu-lhe a explosão física. Mas o que ele perdeu em viço e fulgor, de certo, terá ganho em tirocínio. Hoje, Romário ostenta um saber de experiências feito. Vejo-o, por isso, como uma peça valiosa, um trunfo de peso psicológico.
Enfim, o técnico é o dono da bola. Faz e desfaz. Uma coisa, porém, é descartar um jogador, outra, bem distinta, é destratá-lo com alusões de mau gosto. Não sei se Felipão conhece um velho provérbio que o futebol me ensinou e que diz assim: Deus castiga a quem o craque fustiga.
UM ARCO DE LUZ
O gol, quase sempre, é o desfecho de uma ação tramada em conjunto. Alguém dá um drible, outro alguém dá um passe, curto ou longo, mais adiante, outro se desloca, abrindo espaço; por fim, vem o artilheiro e conclui. Tanto pode ser chutando, como cabeceando. Daí, aquela célebre frase atribuída a Zagallo de que o gol é apenas um detalhe. Numa simplificação, não deixa de ser um pormenor. Afinal, o gol, quase sempre, é fruto de um esforço coletivo. Mas, amigos, há gols que transcendem, não apenas a jogada, não apenas a partida, não apenas o próprio futebol. Vão além da imaginação humana. Exemplo: o gol de Alex no São Paulo quarta-feira passada. Aquilo, mais que um gol, é uma composição poética. Harmonia e ação. Pela inspiração, pelo estilo, é um poema recitado a duas vozes: o craque e a bola.
Dizer que o gol de Alex valeu pelo jogo é desmerecer uma das mais belas partidas a que tenho assistido, nos últimos anos. Manuel Bandeira diria que foi um alumbramento. A rigor, foram duas récitas: no primeiro ato, o Palmeiras deitou cátedra e verteu por inteiro o coração. Há algum tempo, o time do Palmeiras não me empolgava tanto. No segundo, o time do São Paulo reencontrou-se na vistosa fluidez de suas ações ofensivas. Não é por ter perdido o jogo que o time de São Paulo vai perder o seu encanto. Pelo menos, nesse torneio, se os demais times empolgam, o São Paulo, vai além, deleita.





