A VEZ DO ATAQUE



Três, quatro gols por jogo. Tem sido assim, tanto no Rio-São Paulo como na Copa Sul-Minas. Os nordestinos, com seu próspero torneio, não têm dado por menos. De repente, o futebol está deixando de ser um capricho de pranchetas pra ser, de novo, o jogo mais fiel à gloriosa incerteza do esporte.
Quem está na estrada há muito tempo sabe que, no confronto de forças, o bom ataque sempre predominou sobre a boa defesa. De saída, por uma circunstância de ordem técnica indiscutível: o atacante é, naturalmente, mais habilidoso que o defensor. No mano-a-mano, quem aposta no defensor? Pra tentar equilibrar a coisa, o zagueiro costuma partir pra ignorância. Sempre foi assim.
Felizmente, a arbitragem passou a ser mais rigorosa com a apelação. Historicamente, a inovação data do mundial de 90, quando novas resoluções da FIFA mandaram coibir, com severidade, o carrinho por trás, o agarrão na camisa. Hoje, quem aterrar um adversário na bica de fazer um gol será punido, pra valer. Se o infrator for o chamado último homem, deve ser expulso de campo. A começar do goleiro...
Aparece, depois, o critério de três pontos por vitória. Um golpe mortal na manobra defensiva do zero-a-zero. (Registre-se que, em 72 partidas do Rio-São Paulo, não houve um único escore em branco). Os treinadores já não têm porquê investir em jogador de destruição. Ressurge, em todos os times, a figura do volante. Não aquele principesco Danilo Alvim, não aquele requintado Dequinha, grandes estilistas devotados à armação das jogadas ofensivas. Luminosas sombras dos verdadeiros atacantes. O volante moderno tem dupla função: arma e procura desarmar. Como, porém, não tem índole de troglodita, é bem mais vulnerável e acaba deixando mais exposto o zagueiro de área.
O futebol estava na cruz dos caminhos: ou repensava a filosofia de jogo, ou ia acabar perdendo seu charme. Ia ficar entregue às baratas. E só não digo que os estádios vão voltar a encher porque a violência das torcidas intimida o torcedor pacífico. Episódio simbólico da deformação moral do torcedor é o gesto estúpido desse garoto de 15 anos, torcedor do Botafogo. Com uma frieza mórbida, o menino atirou uma bomba caseira no meio da torcida do Santos. Um caso de ‘‘ódio esportivo’’, pra citar a expressão recém-criada pela justiça argentina.
Os técnicos não devem capitular a eventuais pressões da crítica. Deixa falar que os zagueiros de área são fracos. São, mesmo. Que não sabem marcar. Nunca souberam. Nos mundiais que o Brasil conquistou, em 58, como em 62 e 70, não havia nenhum luminar na grande área. Beline e Orlando Peçanha eram tecnicamente tão discretos quanto Mauro e Zózimo (Mauro, a meu ver, estava um ponto acima, tinha boa técnica). Brito e Piazza não iam além da meia-sola, defensivamente, embora Piazza, de origem, fosse um volante e não um zagueiro; aliás, um bom volante.
O que me parece inegável é que o futebol jogado no Rio-São Paulo e na Copa Sul-Minas está cada vez mais vistoso. Dá gosto ver despontar talentos como Kaká (São Paulo), Diego (um juvenil de 17 anos, autor do mais belo gol de Santos-e-Botafogo, domingo passado), de Andrezinho (Flamengo), de Itamar (Palmeiras), Leo Lima (Vasco), uma safra, enfim, que está enobrecendo a qualidade do futebol e que, certamente, não teria vingado se ainda vingasse a sinistra lei do pau-puro de uma aberração chamada cabeça-de-área, sinistro sinônimo de cabeça-de-bagre.

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