A SEGUNDA ALMA


O futebol brasileiro, pelo menos dentro do campo, vive um momento esplêndido. É só correr os olhos pelos estádios. Em qualquer torneio ou copa, o que mais se vê é jogo bem jogado, é bola na rede, é disputa emocionante. Quererá isso dizer que teremos, finalmente, uma seleção de respeito no mundial? Tomara, meus amigos, tomara. Nada, porém, me anima a pensar assim, embora deseje tanto. É que não me sai do pensamento a sucessão de partidas mal jogadas pelo Brasil, ao longo dos últimos dois anos.
Minha desconfiança se divide entre as idéias pouco transparentes de Scolari e a alienação dos estrangeiros que têm formado a base da seleção. Quem sabe os Rivaldos da vida não nos presenteiam na Copa com o futebol que até hoje eles só têm mostrado nos campeonatos europeus?
Sejamos otimistas. A esperança é a nossa segunda alma.

HORA DA BONANÇA

A média de gols no Rio-São Paulo tem sido acima de quatro por jogo. Um sucesso. A Copa Sul-Minas não chega a tanto, mas é igualmente satisfatória. Os times brasileiros andam mais ofensivos. Os treinadores, já não recorrem sistematicamente à maldição da retranca. O anti-jogo, nas suas mais variadas manifestações, perde terreno. O índice de faltas, se não caiu, como queríamos, já não sobe progressivamente, como há poucos anos. O cabeça-de-área, escalado com a sinistra missão de descer a lenha nos atacantes, pelo menos por ora, anda por baixo. Dá até a impressão de que os técnicos ficam constrangidos de escalar troglodita.
É hora, pois, de exaltar o futebol de bola pra frente. Ah, o bem que faz um jogo como o último Flamengo-Corinthians, cheio de alternativas, gol pra lá, gol pra cá, o pêndulo da vitória a oscilar, entre as duas áreas, palpitante de emoção! Como faz bem ver o bom futebol.
A hora é de bonança, mas cuidado, gente. Já já, a crítica começa a falar mal das defesas. Os catedráticos vão começar a pegar no pé dos técnicos, dizendo que eles não sabem armar defesa, que não têm o pulso da equipe e que deixam todo mundo se mandar pro ataque, como reles peladeiros. Adoráveis peladeiros, digo eu.
Os técnicos são criaturas humanas e, como tal, sensíveis a qualquer crítica. Se o futebol está mais ofensivo, se anda bem mais vistoso, é bem possível que haja nessa história o dedinho dos comentaristas que sempre deploramos os ferrolhos, a catimba, a tática da destruição pura e simples, em detrimento da criatividade, do talento. Se, começarmos a cobrar dos treinadores defesas mais cerradas, táticas mais rígidas, o futebol corre o risco de voltar à chatice do zero-a-zero assexuado que matava todo mundo de tédio.

UM PRODÍGIO

Aconteceu semana passada, mas o instante guarda tal sabor de prodígio que o futebol não me perdoaria se eu não o registrasse neste espaço devotado, creio eu, às boas coisas do futebol. Falo do drible indelével com que o jogador Fábio Baiano surpreendeu um gringo, no jogo entre o Grêmio e o boliviano Oriente Petrolero.
Tentarei descrever a jogada pra quem não teve a ventura de vê-la na televisão: Fábio Baiano está perto da área rival, com um adversário pela frente. É preciso ultrapassá-lo. Baiano, então, dá uma meia trava, prensa a bola entre os dois pés, projeta o corpo pra frente, já alçando a bola feito um arco, por cima da própria cabeça, encobrindo, também, seu indigitado marcador. No ato, o moço desaba no chão, aturdido. Com total domínio do gesto, Baiano reencontra a bola, corta outro rival com um drible rasteiro e, por fim, dá um passe com açúcar e com afeto pro companheiro Rodrigo Mendes fazer o gol. Gol, que, no enredo em questão, não passou de um detalhe de ínfima importância.
Assina a obra, o gremista Fábio Baiano, com firma reconhecida em todos os cartórios do futebol mundial.

mockup