O Brasil está a três meses da Copa e ainda não tem seleção. Pelo menos, essa é a bronca que se ouve nas esquinas e nos botecos de qualquer cidade. Sucede, porém, que a coisa não é bem assim. A seleção existe, sim senhor, e não é de hoje. Scolari já sacramentou. A equipe é aquela da Copa América e das eliminatórias. Quem não gostar que vá se queixar ao bispo, como dizia minha avó.
Pelo menos oito jogadores têm lugar cativo na seleção. Não há quem tire da cabeça de Scolari os seguintes nomes: Marcos, Cafu, Lúcio, Roque Junior, Roberto Carlos, Emerson, Rivaldo e Denílson. Esses são preferências que o técnico não admite questionar. Já no plano da especulação, viriam os nomes do paulista Juninho e de Euller.
Pergunto, então: seria esse um mau time? No papel, não. No campo, tem sido. São jogadores, alguns bons, outros, razoáveis, todos, bem rodados, com experiência internacional. Então, por que até hoje não conquistaram a confiança de ninguém, a não ser do próprio treinador? A meu ver, não há escalação que resista à falta de bons organizadores de jogo. O carro pega é precisamente ali, no miolo da equipe. Não há excelência técnica na meia-cancha da seleção brasileira. A criatividade na transmissão da bola entre defesa e ataque é zero. Pra ser bem claro, falta ao Brasil um jogador da envergadura de Veron, pra citar um rival bem perto de nós.
Quando vi, em certo jogo, Scolari atribuir ao errático Roque Junior a missão de sair lá de trás, tocando a bola como um armador, me deu vontade de desligar a televisão. Heresia tem limite. Quem viu Beckenbauer, regendo a seleção alemã. Quem viu Danilo Alvim, no Brasil da década de 40/50. Quem viu Nestor Rossi, a reinar por ali, nos campos sulamericanos. Quem viu Zito, em 58/62. Scolari bem que podia nos poupar de Roque Junior e de Emerson, aos quais jamais se pode confiar o piano de tantos e tão ilustres virtuoses.
A seleção de Scolari, essa que está na cabeça dele, certamente, não é a dos meus sonhos. Dizem que, agora, ele teria descoberto Djalminha. Quem sabe, dia desses, dá um estalo e o homem descobre, também, Juninho, o pernambucano? Por que não o Ricardinho, do Corinthians, jogador de notável constância e de muita clarividência?
O leitor percebeu que prefiro chamar o técnico de Scolari? Não é cacoete, não. O nome conta muito na definição da personalidade. Cansei do Felipão. Felipão escala mal...
MANUFATURADO TECNOLÓGICO
Guga é um exemplo bem próximo de nós da definição que o sociólogo Domenico De Masi gosta de usar quando fala do atleta atual: ‘‘manufaturado tecnológico’’. Numa visão mais corriqueira, dá pra dizer que o esporte de alta performance reduz a criatura humana à triste condição de caixa registradora. Em poucos anos, o atleta fica milionário, mas o corpo, a alma viram farrapos.
Se o calendário do tênis é implacável, o futebol não deixa por menos. Submeter um jogador ao sacrifício de jogar três vezes por semana, em campos e em cidades diferentes, debaixo de chuva e de sol escaldante, chega a ser desumano. A Sociedade Protetora dos Animais não admitiria semelhante tratamento a seus protegidos. A cartolagem, porém, só pensa em faturar.
A temporada da ATP, que rege o tênis mundial, é uma calamidade. Se o jogador é estrela, então, haja torneios pelo mundo a fora. Guga não é um super-atleta. Desde o começo da carreira, observamos que jamais teve a assistência de um preparador físico. Larri Passos adotou Guga, absolutamente. Ele é o técnico, o preparador físico, o psicólogo. Santíssima trindade que certamente tem méritos na formação do nosso tenista maior. Mas, também, certamente, bem que Guga merecia uma estrutura mais profissional e menos caseira a sustentar sua prodigiosa carreira.
Colaborou Andréa Escobar

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