Morrer no Carnaval dói mais. Ari Barroso se foi no Carnaval de 64. Djalma, do Vasco da seleção, em plena alegria, num já distante Carnaval dos anos 50. Agora, foi a vez de Zizinho. Deixa de bater, para sempre, um coração que tanto pulsou pelo futebol.
A primeira vez que o vi, assim, de perto, como pessoa, foi no sulamericano de 53, no Peru. Desde logo, ficamos amigos. Já era famoso por sua obra sempre majestosa. Então, ninguém como ele fazia tanto milagre com uma bola nos pés. Os grandes senhores do futebol do continente tinham por Zizinho uma reverência sem par. Obdúlio Varela não o via em campo sem que fosse cumprimentá-lo. O argentino Pedernera, um maestro, tirava-lhe o chapéu, sempre que dava entrevista sobre o futebol brasileiro.
Meu primeiro livro, Na Grande Área, de 66, traz uma crônica que escrevi, falando de Zizinho. Nasceu de uma conversa que tive com uma bela moça que se dizia fascinada pelo futebol do mestre. Transcrevo a crônica, em nome da saudade que repassa o meu adeus a mais um herói que se vai: ‘‘Uma moça, bonita moça, que por sinal, gosta de futebol, me pediu notícias de Zizinho, outro dia, e eu não soube informar com precisão o paradeiro de Mestre Ziza. Sabia, vagamente, que ele mora lá em Niterói, e que vive jogando pelo interior do estado, em caráter beneficente, produzindo dinheirinhos para associações de caridade.
Espero, agora, que a moça, bonita moça, por sinal, tenha lido o JB com a notícia de que Zizinho é funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Rio. É guarda rodoviário - e há de ser, com certeza, o mais ilustre guarda rodoviário que o Brasil jamais teve. Na escalação do serviço, guarda Tomás Soares da Silva; na beira da estrada, como na minha saudade, mestre Ziza.
A moça não se lembra de tê-lo visto jogar, mas recorda que ele era tão falado, há dez anos. Tão falado e tão respeitado, e amado, e exaltado, digo-lhe eu com certo orgulho de quem fala de um amigo e de um ídolo.
Pois saiba, linda moça, que mestre Ziza era o fino - o fino. Tinha futebol na medula e no cérebro, no coração e nos músculos. Era, ao mesmo tempo, o pianista e o carregador de piano. Sempre suou a camisa, na derrota e na vitória - era um operário; mas quanta beleza na transpiração de sua obra.
Sempre imaginei Zizinho jogando futebol de sapato preto, traje rigor, tal a leveza de sua passada com a bola e sem a bola. Pois um dia, mestre Ziza mandou que o sapateiro Aristides, do Bangu, arrancasse todas as travas de suas chuteiras.
Aristides resistiu, a princípio, alegando problema de equilíbrio. Mas, foi derrotado e, um domingo, Zizinho entrou no campo do maracanã com as chuteiras destravadas, solinha lisa. E deu um show de bola, sem escorregar nem cair uma só vez. Na semana seguinte, alguns jogadores do Bangu quiseram imitar mestre Ziza e foram treinar sem travas. Diz o Aristides que nunca viu vexame maior, todo mundo escorregando, caindo e patinando o treino inteiro.
Em pé, mesmo, flanando no campo, só Zizinho - o resto, para continuar treinando, precisou ir trocar de chuteiras.
Mas isto, linda moça, é apenas um pouco da história de mestre Ziza, em cujos pés descobri o futebol-arte - o futebol de travas curtas, chuteiras destravadas, futebol de traje rigor, sapato preto, cromo alemão.
Uma confissão que não está na crônica mas que cheguei a dizer à moça, na conversa afetuosa que tivemos é que Zizinho foi um dos meus autores preferidos: eu lia Zizinho, todo domingo, no maracanã.

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