Na Grande Área - Armando Nogueira
Ari Barroso morreu no carnaval de 1964. Domingo de tarde. Foi o mais ilustre torcedor do Flamengo. Como compositor, pelo menos aos meus ouvidos, criou obras magistrais. Não ouço Aquarela do Brasil sem ficar arrepiado. Na voz de Elis Regina, é a glória. Conheci-o só de alguns breves encontros. Anos cinquenta, numa festa da crônica esportiva carioca, depois do almoço, ele sentou ao piano e cantou, durante uma hora, para os poucos que restaram da reunião. Um deles era eu. Guardei, então, os primeiros versos de uma marcha-rancho que, segundo me confessou, jamais fora cantada em público. Obra inédita. Poesia pura: Eu plantei uma roseira/ No jardim dos meus amores/ Sem pensar que por essa maneira/ Eu maltratava as outras flores.
Tinha repentes de humor deliciosamente azedos. Um dia, pôs um colega atrás do gol. Chamava-se Isaac Zuckerman, seu amigo do peito. Chamou-o, lá da cabine, ao microfone. Queria uma informação:
- Alô, Isaac!
Alô - respondeu o Isaac, perguntando: Quem fala? Com quem quer falar?
Desculpe, é engano! - arrematou Ari, uma arara.
Paulo Mendes Campos, amigo de copo e de noite, escreveu um belo perfil de Ari, que vivo relendo no livro Murais de Vinicius e Outros Perfis. Certo de que o leitor ficará satisfeito com a idéia da transcrição de trechos da crônica, passo a palavra a PMC:
Pelo Flamengo, Ari chegou a perder seus velhos bigodes numa aposta de Fla-Flu; fugiu da raia, escondeu-se na casa de Dircinha Batista, mas acabou de bigodes publicamente escanhoados.
Quem ganhou a aposta? O sambista e humorista Haroldo Barbosa. Pois sabiam todos desta praça que Haroldo Barbosa, antes de ser Fluminense, era Flamengo doente; e que Ari Barroso, antes de ser Flamengo, era Fluminense doente. Se Ari não tivesse mais tarde um aborrecimento com a diretoria do Flu, e se Haroldo não tivesse um aborrecimento com a diretoria do Fla, Haroldo teria perdido os bigodes e Ari teria tomado um lindo pileque de champanha em Álvaro Chaves. São coisas da vida! Como diria o Ari uma escala acima.
Brigamos bastante e saudavelmente por causa de futebol. Muito implicava ele com o Garrincha, quando este apareceu no Botafogo. Caí-lhe em cima do pêlo quando, ao transmitir um jogo pela televisão, ele ia narrando de má vontade: Garrincha dribla um. Está querendo driblar outro. Solta essa bola, rapaz! Driblou. Vai querer driblar mais um. Assim não é possível, Santo Deus! Vai perder a bola, é claro. Gol de Garrincha. Chocha, chocha, a conclusão do locutor.
Quando o Brasil venceu na Suécia a Copa do Mundo de 1958, o Calipso, em Ipanema, era um torvelinho. De repente, perfurando o vozeiro do bar, ouviu-se uma voz esganiçada mas vibrante, voz de peixe à escabeche, como Ari Barroso classificou o próprio timbre. Era ele. Bradava meu nome e sobrenome antes de me ver: Vim aqui para penitenciar-me de joelhos! O Garrincha é o maior jogador de futebol do mundo!
Dois anos antes de morrer, declarava: Quero viver mais dez anos. Quero morrer senhor dos meus sentidos, capaz de reconhecer os que me cercam. Não como aquele fazendeiro de Minas, que, aos 99 anos, confundia chá com feijoada.





