Esquece, amigo, a seleção, aquela das eliminatórias que tanto desgosto nos deu. Pense no Rio-São Paulo e no Sul-Minas, pra ficar nos dois torneios que a tevê exibe no Rio. É aí, nesses dois torneios que pulsa o verdadeiro futebol brasileiro. Tenho visto partidas, sempre e por tudo, emocionantes: pelos gols, em qualidade e quantidade, pelo empenho das equipes, pela fluência do jogo. Domingo passado, vi uma tarde deslumbrante de São Paulo,4 x Fluminense, 3. Vi, também, um punhado de lances esplêndidos do ataque do Grêmio, do conjunto do Cruzeiro. Vi um um gol digno de moldura, feito pelo excelente Roger, do Fluminense, chutando do grande círculo, com uma precisão de ourives. Vi notáveis invenções de Kaká e França, ora, isoladamente, ora, em parceria. Vi dois ou três lances iluminados de Dodô, no Botafogo, e de Zinho, no Grêmio.
Que estalo terá dado na cabeça dos treinadores brasileiros, antes tão medíocres na concepção de jogo e na formação de suas equipes? Onde foi parar o cabeça-de-área, pobre futebol de meia-tigela, que infestava nossos campos, há tanto tempo? A tal ponto chegou o flagelo que todo mundo passou a chamar a sinistra figura de cabeça-de-bagre, criação espúria de técnicos pusilânimes.
Abençoada a idéia de atribuir três pontos à vitória, pois foi por aí que se deu o milagre. O empate, que era a salvação da lavoura, passou a ser o calvário dos treinadores. Hoje, equipe que entrar em campo sem ambição de vencer está frita. As equipes estão mais ofensivas, a meia-cancha está mais bem servida de volantes com a dupla missão de defender e atacar. Não se fala mais em retranca, a não ser em circunstâncias excepcionais. Já vimos, nos dias de hoje, tantas vezes, time com dez jogadores partir, de peito aberto, em busca da vitória, até alcançá-la, epicamente.
Outra medida em favor do bom futebol é o tempo dado pelo juiz pra compensar as paradas durante o jogo. O leitor certamente já reparou que muito vencedor circunstancial tem sido surpreendido pelo rival em apenas dois ou três minutos de acréscimo. Obra, é claro, do abismo de três pontos que separa a derrota do triunfo.
O futebol brasileiro pode estar renascendo. Só não vê quem não quer.

PALAVRA DE TELÊ

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