Na Grande Área - Armando Nogueira
MEU TEMPO DE REPÓRTER
Era o ano de 1959. O Brasil, campeão mundial, era a estrela do sulamericano de Buenos Aires. A seleção treinava, nos arredores da cidade. Castilho, no gol dos reservas. Pelé limpa a jogada, e tenta um lençol no goleiro. Castilho, atento, fecha o ângulo e desvia a bola a córner. Comigo, não! grita Castilho, triunfante. Pelé sai da área, passando recibo com um sorriso meio sonso.
Sentado na grama, bem atrás do gol, sinto-me um privilegiado. Pressinto que o espetáculo está apenas começando. Logo, logo, o confronto se repetirá, com certeza. Penso: vale a pena ser um repórter
Lá vem Pelé, outra vez, senhor da bola, senhor da meia-lua. Já nem levanta a cabeça. Sabe, com certeza, que Castilho já avançou, alguns passes, como dantes, pra se antecipar a mais uma tentativa de encobri-lo. Pelé alça a bola, engrena um balãozinho. Castilho salta de braços erguidos. A bola o encobre, mas vai bater em cheio no travessão. O goleiro, claro, volta a cantar vitória. Mais uma vez, não deixara brecha pro lençol.
- Eu te avisei - grita o goleiro - aqui, não tem essa de fazer gol de cobertura! Dois a zero pra mim!
Pelé bate palmas, reforçando o orgulho de Castilho. Fica evidente que o desafio está lançado. Treino que segue. Agora, porém, Pelé já não esconde que não quer perder a aposta. Passa, fácil, pelo zagueiro. Castilho faz que vai sair, mas não sai. Pelé dá uma meia trava. Arma um chute. Castilho avança, encurtando o espaço. Pelé levanta a bola, faz duas embaixadinhas, enquanto Castilho abre os braços, pretendendo, de novo, fechar o ângulo. Mas, já é tarde, amigo. Pelé, sem sequer fitar o goleiro, cabeça baixa, manda a bola, solene e mansamente pro fundo das redes, com um lençol magnifíco.
Simplesmente, mágico.
TORNEIO RIO-SÃO PAULO
O Rio -São Paulo encarna a mais velha e mais saudável rivalidade do futebol no Brasil. Vem de longe. Traz o espírito das seleções estaduais. Belos tempos! Barbosa, de um lado, Oberdan, do outro. Sentinelas de duas respeitáveis fortalezas. O campeonato brasileiro de seleções era o máximo. Depois, ressurgiria o Rio-São Paulo, pra arrancar o futebol brasileiro do fundo do poço do mundial de 50. E não é que o torneio pegou? Cada jogo era uma página de exaltação do futebol. A equipe da Portuguesa, campeã de 52, que beleza! Me lembro muito bem. Parecia uma seleção: Djalma Santos, Julio Botelho, Pinga, Simão, Brandãzinho. Todos mocinhos, todos soberbos. Mais tarde, haveria outra atração do torneio: o gol de placa, que quanto mais o tempo passa, mais bonito vai ficando. Uma jóia insinuada na coroa do futuro rei do futebol. No Rio-São Paulo, foram anotadas as maiores goleadas da história do futebol brasileiro. Houve um torneio com a mais alta média de gols no Brasil: quase quatro gols por partida. Duas escolas, cada uma melhor que a outra. Os cariocas, com seu estilo brilhante, cadenciado. Samba de partido alto. Os paulistas igualmente brilhantes e tão vertiginosos como a própria cidade que não podia parar.
O Rio-São Paulo acabaria como a grande matriz da gloriosa seleção campeã do mundo, no ano da graça de l958.





