Na Grande Área - Armando Nogueira
BOXE? PASSO BATIDO
A manchete esportiva dos jornais brasileiros é Popó. Quero que Popó seja muito feliz, mas passo batido. Soco na cara não é comigo. Já li que os gregos da antiga curtiam o boxe dos Jogos em louvor de Zeus. Platão não perdia uma luta e delirava quando o vencedor deixava o outro desacordado, com um fio de baba no canto da boca quase morta.
Compreende-se. O próprio Platão, sábio que era, desconhecia, contudo, as nobres funções do cérebro. Pra ele, o cérebro era uma espécie de geléia cuja função primordial seria esfriar a cabeça do homem nos acessos de raiva. Hoje, ninguém precisa ser neurologista pra saber que, só por milagre, não fica lelé quem levar uma bordoada na cabeça. Dizem as associações mundiais de neurologia que 90 por cento dos pugilistas acabam com o cérebro em petição de miséria.
Depois da luta, a primeira coisa que quiseram saber foi porque Popó não venceu por nocaute. Popó não soube explicar. Em trinta e uma lutas, ele ganhara 29 deixando desacordado o adversário. A suprema glória do boxe é a ruína física do semelhante. Como diz meu amigo Jorge Adib, não pode se chamar de esporte uma coisa que, feita fora do ringue, dá cadeia.
Passo batido.
VINICIUS, EM DOIS TEMPOS
Sérgio Augusto está escrevendo um livro sobre o Botafogo. Melhor interprete o clube não poderia ter. O estilo de escrever é irretocável. O senso de humor vem, sempre, na conta certa. Por fim, o moço é um botafoguense de berço esplêndido. Há dias, batemos um papo sobre gente ilustre que torce pelo Botafogo. Em dado momento, hesitei sobre a paixão clubística de Vinícius de Morais. Sérgio não teve dúvida: Vinícius torcia pelo Botafogo. No dia seguinte, relendo Paulo Mendes Campos, outro alvinegro palpitante, encontro o seguinte comentário do dito Vinícius: Me diga, sinceramente, uma coisa, Mr.Buster: o senhor sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
No mesmo capítulo do livro do Paulinho (Murais de Vinícius e Outros Perfis) está um lance do poeta que vale a pena transcrever: Uma vez, Vinícius chega de manhãzinha e, de repente, na casa de seus amigos Maria Amélia Sérgio Buarque de Holanda, em São Paulo. Uma empregada o introduziu na sala apenumbrada e foi chamar os patrões. O poeta já ia se acomodando numa poltrona e atingindo o point of no return, quando sentiu algo vivo debaixo de si. Pensou, naturalmente, que fosse um gato, mas era uma criancinha de colo. Se Vinícius não fosse ágil, talvez tivesse sufocado em semente o seu futuro parceiro Chico Buarque de Holanda.





