FUTEBOL É COISA SÉRIA




Roberto é um velho companheiro, mas pouco nos vemos. Faz tempo que andamos sumidos um do outro. Coisas da vida: ele pra lá, eu pra cá. Outro dia, nos encontramos, casualmente, num restaurante. Depois de passar a limpo o tempo e a distância, Roberto põe-se a falar de mim, de meu trabalho. Me lê e, às vezes, até que me vê falar na televisão. Diz que gosta. Solta um breve elogio, mas está na cara que o que ele está querendo, mesmo, é me chatear. Na mesma língua afiada, confetes e alfinetes. Diz que não compreende que eu só me ocupe de futebol, coisa menor. Quase meio século a escrever sobre as frivolidades do gol. Pondero que me aventuro, também, noutros esportes. Me interesso por tênis, acompanho o basquete, o vôlei. Recordo-lhe que tenho até um livro só falando de esportes olímpicos ‘‘A Chama Que Não Se Apaga’’.
O cara não se rende. Diz que está cansado de me ver perder meu tempo a falar de temas fúteis. Gostaria que eu tivesse a coragem de enfrentar outros desafios que a vida propõe aos cronistas de verdade. Em suma, Roberto quer que eu dê uma de Rubem Braga. Ora, ora, meu bom Roberto, logo quem, o Pelé da crônica? Estás a fim de me ver quebrar a cara? Por favor, me deixa ficar na batida rasteira da minha meia-sola. Tenho plena consciência de meus limites. Jamais saberia matar no peito uma bola de sem-pulo. Rubem era mestre na arte de jogar com palavras. Pegava o pio de um passarinho e transformava em singela e poética reflexão.
O futebol que Roberto, injustamente desmerece, tem dois sabores: tanto pode ser banal como pode ser transcendente. Depende de quem o aborde. Se tenho dele a estreita visão do beco, a culpa é minha, não do futebol. Nelson Rodrigues via uma partida de futebol com os olhos abertos de uma lente grande angular. Daí, a dimensão épica de seus escritos. Um gol, um drible, um passe, enfim, um gesto do futebol leva o coração do homem a oscilar entre prosaico e o sublime. Condena e redime. É delírio e perdição.
Sérgio Augusto, brilhante escritor de minha predileção, acaba de publicar um livro chamado ‘‘Lado B’’. É um primor de inteligência e saber. Na página 11, quando discorre sobre gêneros literários, Sérgio lembra que Roland Barthes e Umberto Eco já provaram ‘‘que as luvas de Rita Hayworth e as orelhas do Mickey são tão dignas de uma reflexão quanto a morte, a solidão, a velhice, as paixões, a miséria.’’
O futebol, também. Por que não?

Colaborou Andréa Escobar
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