ORAÇÃO EM BOA HORA


É inexorável: o futebol brasileiro mudou, a caixa preta foi aberta. As torres, aquelas duas torres... agora a gente fecha os olhos e só pode imaginá-las na paisagem de Manhattan. E nossos vizinhos... não chores por mim, Argentina ...
E as crianças afegãs que nós não conhecíamos? Como são dolorosamente belas as crianças afegãs sujas de poeira, meu Deus!
O cinematográfico ano que passou será para sempre lembrado como o ano das cavernas e das crianças do Afeganistão. E agora, remexendo nos arquivos de 2001 encontro este texto anônimo, simples como são todos os textos anônimos. Reza a lenda que foi escrito no silêncio de um convento, por um monja contrita. Eu acredito. Acho que entre os religiosos, por mais santos que todos sejam, as monjas se sobressaem em autocrítica e em coragem. E depois de rezar muito esta oração durante 2001, acho que ela deve ser compartilhada com meus caros leitores aí está. Só faz bem a alma e também nos faz sorrir.
''Senhor, sabes melhor do que eu que estou envelhecendo,
e que, mais dia menos dia, farei parte dos velhos.
Guarda-me daquela mania fatal de acreditar que é meu dever dizer algo a respeito de tudo e em qualquer ocasião. Livra-me do desejo obsessivo de por ordem nos negócios dos outros.
Torna-me refletida mas não ranzinza, serviçal mas não autoritária.
Acho uma pena não utilizar toda a imensa reserva de sapiência que acumulei por longos anos, mas bem sabes, Senhor... faço questão de conservar alguns amigos.
Segura-me quando eu começar a desfiar detalhes que não acabam mais, dá-me asas para ir direto ao fim.
Sela meus lábios acerca de minhas mazelas e doenças, embora essas aumentem sem cessar e, com o passar dos anos, me dê certo prazer enumerá-las.
Não me atrevo a pedir-te que eu chegue até gostar de ouvir as outras quando desenrolam a ladainha dos próprios sofrimentos, mas ajuda-me a suportá-las com paciência.
Não me atrevo a reclamar uma memória melhor, dá-me porém uma crescente humildade e menos suscetibilidade, quando a minha memória esbarrar na dos outros.
Ensina-me a gloriosa lição de que pode até acontecer que eu esteja enganada.
Toma conta de mim, não é que eu tenha tanta vontade de virar santa (com certos santos é tão difícil conviver!) mas uma velha, além de velha, amarga é com certeza uma das supremas invenções do diabo.
Faz-me capaz de ver algo de bom onde menos se espera, e de reconhecer talentos, em gente na qual estes não se percebem e dá-me a graça de proclamá-lo. Amém.''

# # # # #
Colaborou Andréa Escobar
# # # # #
Correspondências para ''Na Grande Área'': Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - E_MAIL: [email protected] - HP: www.armandonogueira.com.br

mockup