A REDENÇÃO DO FUTEBOL

A primeira já encheu os olhos. A segunda e decisiva, hoje, há de ser a consagração do futebol brasileiro. Quem será o campeão, a essa altura, ninguém poderá antecipar. Nada grave, porém, porque o grande vencedor já pintou: somos todos nós que estamos tendo o privilégio de ver a decisão do campeonato entre duas equipes do bem.
O que nos exibiram, domingo passado, Atlético Paranaense e São Caetano, nada lembra a mesmice viciada de sempre. Saudemos a alma nova, o estilo franco, o desassombro, o ímpeto ofensivo, a obstinação defensiva. Sau© demos a lágrima e o sorriso, as mãos crispadas, o halo de esperança no rosto unânime das duas torcidas.
Nos últimos dias, só encontro gente feliz. Leigos e catedráticos, jovens e coroas, arrebatados pelo que viram, domingo, na Arena da Baixada. Futebol como ninguém via, já faz tempo. Benção que desejamos de longo prazo até que desapareceu do mapa o papo furado dos medalhões. Arrastão de bom gosto, redimindo os campos da insuportável mediocridade da seleção.
Que a finalíssima de hoje nos venha ungida de todos os fluidos que fizeram a glória daquele futebol épico, glorioso, dos tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.

O NATAL DOS ÁRBITROS

Todos nós passamos a vida inteira a desancar a arbitragem. Seja qual for. No fim do século XIX, quando principiava o futebol na Inglaterra, já era assim: o juiz saía de campo vestido de policial ou de padre pra não ser linchado pela torcida. Pois pelo menos pra mim, chegou a hora de fazer justiça. A melhor prova da idoneidade e da competência dos árbitros é o desfecho do campeonato brasileiro de 2001, decidido entre duas equipes de dois clubes de porte médio. Atlético-PR e São Caetano não pertencem à curriola do Clube dos Treze. Se dependesse da cartolagem, os finalistas seriam outros. Pois os dois acabaram engolindo, bonitinho, os bichos-papões. Jogaram melhor, jogaram futebol empolgante, de bola redondinha. E não se pense que não houve pressão sobre a arbitragem. Houve, sim. Cada jogo era uma pequena provação pra arbitragem. Torcida, jogador, treinador, cartola, todo mundo cobrava do juiz a satisfação de seus interesses. Uns eram sinceros, outros, certamente, suspeitos.
Os árbitros contaram, sempre, com o comando competente e judicioso de Armando Marques. Ele foi um excelente árbitro. Noutros tempos, dava a impressão de estar de bem com a vida. Era comunicativo. Fazia programas de televisão. Tinha lá sua graça. De repente, ficou amargo, trancou-se em copas, virou um soleníssimo energúmeno. Mas é um supervisor qualificado. Deu jeito na arbitragem. Os árbitros, mesmo marginalizados da profissionalização do futebol, têm dado conta do seu recado. Nada mais justo que render uma homenagem à categoria mais deserdada do futebol. Sempre considerei o árbitro a criatura mais solitária do futebol. Sua solidão é maior que a do goleiro, bem maior que a do cronista. Ponto morto, a correr na diagonal do campo, sem par, sem perdão. Desirmão.
Cartão verde e Bom Natal pra todos os árbitros do Campeonato Brasileiro de 2001.

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