UM ANJO ME VISITA...


Toca o interfone. É o porteiro. Avisa que tem alguém na portaria, querendo falar comigo. É uma moça que precisa me entregar uma notificação judicial. Peço que suba.
É uma citação explica e me entrega um documento, cuja cópia devo assinar formalmente. Amável, a moça me pede desculpas. Fico surpreso com as escusas. Desculpá-la de quê? Ela explica: não gostaria de ter vindo à minha casa para estragar o meu fim-de-semana. Não tinha, porém, como evitar a visita, mesmo que seja numa manhã assim, de um sol assim. Olho pela janela e vejo a lagoa, radiosa, sinal de um sábado luminoso.
Não seja por isso, respondo, absolvendo-a de qualquer mal-estar que a sua missão possa me causar. Afinal, são os ossos do ofício. Meu saudoso pai também era Oficial de Justiça. Me lembro dele, muitas vezes, tendo que madrugar na casa de alguém, tal como agora madruga à minha porta essa, como direi?, jovem serventuária da Justiça carioca.
Leio o documento, naturalmente, apreensivo. Logo, porém, vejo de que se trata e me tranquilizo: Eduardo Viana, o Caixa D'Água, abre, contra mim, um processo por danos morais. O documento destaca trechos da coluna ''Na Grande Área'', em que desanco as patifarias do velho cartola, por sinal, uma das bolas da vez da CPI do futebol.
Antes de devolver a cópia da citação, com a devida assinatura, dedico à moça um olhar e um sorriso de agradecimento. Ela sorri, também, na despedida. Fico pensando: minha visita foi embora sem entender direito a razão do meu contentamento. Mal sabe que a recebi em minha casa como se recebesse um anjo-da-guarda, trazendo na mão uma mensagem bem-fadada. Me explico melhor: há muito tempo, venho conversando comigo mesmo sobre quanto eu gostaria de merecer um epitáfio. Alguma expressão que pudesse dar um realce, pálido que fosse, à minha passagem por esse mundo de Deus. Fogo-fátuo. Que frase poderia resumir, numa lápide, a história de minha pobre vida tão escassa de virtudes?
Pois bem, agora, já não tenho porque esquentar a cabeça, amigos. Minha glória única acaba de ser conquistada, numa manhã de sol assim. Já tenho a inscrição tumular que há de encerrar o meu adeus à vida. Será assim: ''Aqui jaz Armando Nogueira que foi processado pelo Caixa D'Água.''

DOIS TIMES PARELHOS

O campeonato de futebol 2001 vai ser decidido entre duas equipes do mesmo padrão técnico, muito bom, por sinal. Não fosse a vantagem do empate que contempla o São Caetano, eu diria que, a meu ver, não há favorito, de tal maneira os dois se equivalem. Ambos os finalistas são bons exemplos de organização tática e de força mental.
Pra ser mais rigoroso, até que vejo o São Caetano um pouco mais equilibrado em suas ações defensivas e ofensivas. O time paranaense me parece mais ousado. Ataca mais. Em consequência, fica, naturalmente, mais exposto ao contra-ataque, arma que o São Caetano maneja como ninguém.
Há um elemento que pesa a favor do Atlético, que é o campo. A Arena da Baixada é a ''Bombonera brasileira''. A Bombonera, todos sabem, é a célebre panela de pressão do Boca Juniors, de Buenos Aires. A multidão fica a poucos metros do campo. E haja pressão emocional. Sem exagero, eu me atrevo a dizer que o chamado fator campo, domingo, vai pesar tanto ou mais ainda que o empate que o regulamento concede ao São Caetano.

RÁPIDAS E RASTEIRAS

- Eurico, Edmundo e Caixa D'Água partiram pra chamada retaliação. Querem bagunçar o calendário solenemente aprovado em encontro de Ricardo Teixeira, Pelé, Clube dos Treze e Havelange com o ministro Melles. A banda podre quer afrontar a autoridade de Melles. Está comprando uma briga indigesta. Não sabe o tamanho da Medida Provisória que vem por aí...
- O deputado Aécio Neves, presidente da Câmara, que acaba de ganhar uma parada histórica, com fim da imunidade irrestrita, pode começar a limpar a área, cassando o mandato de Eurico Miranda.
- Se o Judiciário se unir ao Executivo (Melles) e ao Legislativo (Dias e Althoff), teremos Praça dos Três Poderes, em peso, na batalha de moralização do futebol brasileiro.
- O time do Flamengo joga, hoje, sacudido por uma crise das mais sérias: jogadores em conflito com a diretoria, desarmonia no elenco, salários vencidos. Um caldo grosso que pode, perfeitamente, entornar em cima do San Lorenzo. A hora é essa. A Mercosul é dinheiro vivo na mão.
- Já me chegam os primeiros e-mails de torcedores do Vasco, querendo saber como podem falar com o ex-atleta Fernandão, que lidera o movimento pra expulsar do clube o indecoroso Eurico Miranda. Querem se juntar aos bons para ser um deles.
- A ginasta Daniele Hypólito, a nossa pequena notável, está bem cotada pra eleição de melhor atleta feminina do ano, a ser realizada pelo COB no dia 17.
- O jogador Tinho, do Sport de Recife, contratou a advogada Gislaine Nunes pra defender na justiça os sete meses de salário que o clube pernambucano lhe deve. A advogada está entrando com o processo.
- Ao todo a Copa do Mundo de 2002 terá quinze patrocinadores oficiais (Coca-Cola, Adidas, McDonald's, Yahoo, entre outros). Só aí a Fifa Marketing embolsará por volta de US$ 470 milhões. Mais uns US$ 16 milhões com as vendas de produtos licenciados camisetas, bonés, toalhas, bandeiras, chaveiro e outras bugigangas.

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